A magnitude do nada

Devia ser perto do meio dia. O sol batia no para-brisa do carro com tal violência que mesmo o possante ar condicionado mal dava conta de refrescá-lo. Estávamos em meio a uma de nossas loucas viagens, em pleno deserto de Death Valley – o temído e perigoso Vale da Morte -, em Nevada, indo para a Califórnia. De repente me deu vontade de ver e fotografar alguma tropa de cavalos selvagens, daqueles que os índios domavam e montavam com tanta habilidade. Esse repentino desejo era certamente a vontade de voltar ao passado, me ver sentado numa poltrona do Cine Jardim, na Fradique Coutinho, assistindo a um Faroeste de primeira. Como Dora também é cabeça de vento e topa tudo, bastou sinalizar para ela concordar e eu tirar o carro da estrada e virar o nariz da pobre SUV para as areias tórridas e sem destino do instigante deserto. Lá não pega celular e não tem uma viva alma nem na estrada, imagine no meio daquele mar de areia e pedra. E se o carro quebrar? Bom, Graças a Deus não quebrou e estamos vivos. E lá fomos nós, literalmente aos trancos e barrancos. Uns quarenta minutos deserto adentro, paramos para tomar um lanche num Saloom, que mocinhos e bandidos também fazem isso. É claro que o saloom foi obra de minha imaginação. A mesa era o capô fervendo do carro. E saimos a pé para sentir melhor a temperatura… Então, em dado momento, quando Dora sumiu atrás de umas formações rochosas procurando uma caverna, olhei para aquele horizonte sem fim e comecei a pensar sobre a magnitude do nada. Geralmente não damos atenção ao vazio, ao silêncio, ao nada. Sempre queremos tudo. Não por ganância ou egoísmo, a não ser em casos específicos. Mas é que nos acostumamos ao movimento, à busca desenfreada pelas coisas, sem nem mesmo saber porque o fazemos. E, muitas vezes, o nada é mais significante do que o tudo. Veja na música, por exemplo, como as pausas, o silêncio repentino, o nada, valorizam a harmonia e a melodia. E quando você quer dormir e algum carro dispara o alarme? Um, dois minutos e sua cabeça parece querer estourar. De repente, o silêncio. Você não escuta mais nada. Seus instintos, que estavam concentrados naquele turbilhão invadindo seus tímpanos parecem ronronar de felicidade pela paz que te invade a alma. E o que é isso senão o nada? Aquele momento em que você não pensa, não se preocupa, ninguém te interrompe. A sensação do nada. Essa é a magnitude a que me refiro. Nosso corpo e nossa mente, principalmente nos dias atuais, estão em constante ebulição, com informações sobre tudo e sobre todos chegando a todo instante. Não fomos concebidos para viver esse pandemônio. Mas quem quer ser um alienado? O que dirão nossos amigos da Rede? É preciso estar atento e forte, como já dizia o poeta. Mas a verdade é que um pouco de quietude e paz faz muito bem à nossa mente, ao nosso corpo e à nossa alma. E, de repente, lá de cima de uma rocha, Dora grita, toda feliz: Avistou, no meio do nada, a uns dois ou três quilômetros de distância, uma tropa de cavalos selvagens digna de um filme de John Wayne. Guardamos as sobras do lanche, embarcamos no fiel bólido e pisamos fundo no acelerador dos sonhos, cavalgando um corcel pampa rumo ao passado, tão próximo e tão distante. Aiou, Silver!

Lula e a lâmpada de Aladim

Lula e a lâmpada de Aladim . Gleisi Hoffmann levou pro Lula, em sua confortável cela na prisão, uma lâmpada de Aladim. Ele esfregou – primeiro Gleisi, depois a lâmpada, -, ouviu-se um estampido, que pensaram ser um rojão pela sua soltura, e apareceu um gênio: “Senhor Presidente, o senhor tem direito a três desejos. Manda bala” “Começou a provocação, quem manda bala é Bolsonaro. Eu mando dinheiro pra fora. Mas vamos lá. Eu quero: Primeiro, sair da cadeia; Segundo, colocar no meu lugar o culpado por eu estar aqui; E em terceiro, dar muita risada da cara dele!” “Seu desejo é uma ordem, senhor. Um minutinho que já vou providenciar…” Meia hora depois volta o gênio com um espelho de mão, entrega pra Lula e diz: “Tá tudo ai. Comprei o espelho no camelô da esquina.” “Como, seu pilantra? Tás de conluio com o Moro, vagabundo? Cadê meus desejos?” “Não, senhor, apenas obedeci suas ordens: o senhor pediu pra sair da cadeia e colocar o culpado por estar ai em seu lugar para dar risada dele. O culpado por estar ai é o senhor mesmo, e pra dar risada de sua cara, só com um espelho. Esse foi o segundo desejo mais barato que já me apareceu. Valeu. Gratidão.” “Gratidão o cacete, coisa mais chata isso, Desgraçado, e qual foi o primeiro desejo mais barato?” “Foi um burro – de verdade – que me pediu, coitado, pra comer uma pizza ao menos uma vez na vida” “E ele pediu pizza do que?” “De capim, uai… E ainda sobrou um pedaço. Servido?”

A hora do porém…

“Analisando-se as provas contidas nos autos, destacando-se entre elas os vídeos, o depoimento de quatro testemunhas, o álibi apresentado – que coloca o Réu a quilômetros de distância no momento do crime – e as demais evidências apresentadas, não se pode vislumbrar o Réu – marido da vítima – a desferir-lhe as oitenta facadas que lhe causaram a morte… “

No banco dos réus um pequeno sorriso aparece nos lábios do principal suspeito, um médico de renome acusado de assassinar friamente sua mulher por motivo de ciúme. O olhar confiante lançado ao advogado não deixava dúvidas sobre o veredicto final a ser pronunciado em instantes: “Not Guilty, ou Inocente, para os pobres que não pensam em dólar”. Normalmente um homicídio, como é o caso, deveria ser julgado por um júri popular, mas como a história é minha, optei por um Juiz simples. Algum problema? Bom, voltando à vaca fria, digo, ao cadáver gelado, estávamos em um momento de êxtase para o Réu, antevéspera de sua tão sonhada liberdade, uma vez que estava preso há quase um ano esperando o julgamento. Logo ele, um cirurgião de renome, humilhado em praça pública, primeiro pela traição da desgraçada da mulher com o próprio motorista, com o padeiro, com o tintureiro, com um entregador de pizza do Ifood – cuidado com eles – e depois pelas manchetes de jornal. Mas, pelo andar da carruagem, aquelas palavras reconfortantes do Juiz – esse sim, um homem de verdade, corajoso, que não teria medo de ir contra a fúria popular – ele logo estaria em casa e no consultório, onde fez seu nome e seu dinheiro.

“No entretanto… “, continuou o Juiz.

“Não!!! No entretanto, não.”, ruminou o advogado num esgar. “ Essa maldita conjunção adversativa vai colocar tudo a perder…” O Doutor Inácio logicamente não estava pensando na liberdade de seu cliente, mas em seus honorários, que só receberia em caso de vitória. O doutor Manfredo, o cirurgião réu, viu, de seu banco – assento preferencial dos inocentes, lugar jamais ocupado por um culpado -, a preocupação estampada na cara de seu causídico. E não gostou nada disso.

“No entretanto…”, continuou o Juiz, “ a ausência do Réu no lugar do crime não o livra automaticamente de culpa. Sabido é que muitos assassinos não protagonizam o evento, pois, covardes que são, apenas mandam terceiros fazer o serviço sujo.”

Doutor Manfredo, que quase desmaiou ao som nefasto do “no entretanto”, já se sentindo mais enjaulado que leão de zoológico, recuperou a esperança quando ouviu da boca do magistrado um promissor advérbio de modo chamado ‘outrossim”.

“Outrossim”, continuou sua Excelência com um sorriso zombeteiro, “nem todas as traíções ensejam a morte da mulher, caso contrário a minha já teria passado desta para a melhor umas dezoito vezes, se é que meu detetive é tão bom de matemática quanto aquela sirigaita é de cama. Desculpando o desabafo, digo que não se pode acusar todos os maridos de mandantes, mesmo que motivos haja à sobeja”, disse o Juiz que gostava de uns termos estranhos, para gáudio – eu também gosto – do Réu, de cujos lábios mais uma vez assomou um sorriso, ainda que débil.

“Estou salvo”, gritou a plenos pulmões Doutor Manfredo, muito embora ninguém tivesse ouvido, pois era um grito subliminar, se é que me entende o prezado leitor. “Esse outrossim salvou minha vida. O desgraçado desse Juiz não vai mudar o rumo da conversa outra vez. Assim não há tatu que aguente. Graças a Deus posso voltar para minhas bandalheiras…” “PORÉM…”

“Não!!! Deus, dai-me forças para aguentar outra conjunção adversativa”, urrou o cornudo, digo, o médico, digo, o Réu.

“Porém, e sempre há um porém, novas provas carreadas aos autos nos dão segurança em afirmar que o Réu, na tenebrosa noite de vinte e dois de fevereiro do ano findo reuniu-se à sorrelfa com Dom Diego Tesoura, ex-toureiro espanhol conhecido por suas habilidades com uma espada. Nesse hediondo encontro firmaram um pacto, onde Dom Diego mataria a esposa traidora do contratante com, no mínimo, trinta facadas, que era pra ela deixar de ser besta e, em contrapartida o chifrudo lhe pagaria a importância de 50 mil pesetas, das quais dou ampla e geral quitação.” (Advogado, mesmo falando em nome do personagem, não perde o costume de passar recibo de honorários). Em vista do exposto, considero o Réu culpadode homicídio em primeiro grau por motivo torpe, condenando-o a vinte anos de prisão em regime de baixa caloria sem glúten e, desculpem, é a mania de minha mulher, digo, condenando-o a vinte anos de prisão mais dois meses e três dias em regime fechado. É o que decido. Evacuem o recinto com cuidado para não cheirar mal.”

E assim é que Doutor Manfredo, embora vingado, o que por si só não diminuiu um milímetro de sua galhada, foi condenado a vinte anos dois meses e três dias (até hoje não sei o porquê desses quebrados na dosimetria da pena), os quais cumpre galhardamente em um presídio federal onde se amigou com Manecão, um mulato de um metro e noventa conhecido por suas avantajadas competências, onde vive muito feliz, só não sabendo porque perdeu tanto tempo na vida com mulher, o que não é necessariamente a opinião do autor, que acha extremamente dura a vida da ficção, excetuando-se a realidade, que é bem pior…

Uma história sem pé nem frango assado

Uma história sem pé nem frango assado Ana Julia, moça do interior, foi confessar com Padre Eustáquio. Confessou que ainda era moça. Padre Eustáquio a levou pra sacristia e mostrou com quantos paus se faz um banco de igreja. Só que, constatou-se depois, nem padre Eustáquio era padre, nem a moça era mais moça. Da relação nasceu um bacorinho a quem foi dado o nome de Sacristóvão. Padre Eustáquio o batizou em uma cerimônia três em um, onde foi o batizante, o pai e o padrinho. Ana Julia só chorava. Padre Eustáquio então cantou “Por quem chora Ana Julia” e ela chorou mais ainda, pois a letra estava errada, essa música é Por quem chora Ana Maria, do Juca Chaves. A música dela, desculpando o cacófato, é do Los Hermanos, banda dissolvida em ácido sulfúrico mês passado, Graças a Deus, já que o cantor é um chato, que casou com uma cantora mais chata ainda e que merecidamente levou uma chapoletada do Chorão, que Deus o tenha, no aeroporto de Congonhas, que entrou no assunto como Pilatos no Credo e Pilates na minha vida, mas que tirei logo. Padre Eustáquio, que de padre não tem nada, continua a ouvir moças no confessionário e levá-las à sacristia para fazer Sacristóvãos, pois sabe que quase nada do que dizem é verdade e quase nada do que faz também. E dá-lhe água benta, que enquanto o dólar sobe, a libido só despenca e a fila só aumenta…

O temível confronto entre o tolo e o sábio

Cenário: O cair da tarde numa rua de terra do velho oeste. Da sacada do Saloon, uma multidão ansiosa espreita. Como armas, apenas palavras. Luzes, câmera, Ação! À direita surge o tolo, caminhando seguro e altivo em direção ao frágil oponente que se queda inerte. Com ar desafiador, o tolo para a uma distância de quinze metros do sábio e grita: “Saque primeiro, seu covarde! Serão suas últimas palavras.” E o sábio então falou. Ou ao menos tentou. Pois o tolo mais não deixou. O tolo, que jamais ouve alguém, não ouviu o que o sábio disse. O sábio, que a todos ouve, não entendeu uma palavra do que o tolo gritou. “Perca de tempo da moléstia, sô…”, menosprezou o tolo limpando sua roupa janota. “É perda, idiota”, tentou mais uma vez o sábio, já irritado, em seu surrado terno. Mas o tolo mais uma vez não ouviu. Cheio de certezas já ia longe, cavalgando a própria ignorância…

Fábula O milionário e o mendigo

Fábula O milionário e o mendigo Um mendigo ia caminhando pelas ruas quando viu passar uma limousine. Sem que tivesse feito qualquer gesto, o caro parou ao seu lado. Dele desceu um rico comerciante, todo envolto em roupas de seda e pedras preciosas. – Por que estás nesses andrajos e, principalmente, com essa feição tão triste, meu amigo?, perguntou o milionário. – É que sou pobre. – Mas a riqueza não traz a felicidade. – E o que traz a felicidade então? – É a sabedoria. – E por acaso o senhor é feliz? – Sim, porque, além do dinheiro, tenho sabedoria. O que traz a verdadeira felicidade é a sabedoria e não o dinheiro. – Mas por que então sou infeliz? O milionário, que, pensativo, já havia entrado no carro que começava a andar, mandou o motorista parar, abriu a janela e, olhando no fundo dos olhos do mendigo, declarou: – Fácil! Tu és infeliz porque, além de pobre, tu és burro, meu…

A memória do leão

Uma garota africana encontrou um filhote de leão abandonado pela mãe. Colocou nele o nome de Príncipe das Savanas. Cuidou dele durante cinco anos. Se afeiçoaram. Depois, soltou o leão na floresta e nunca mais o viu. Quinze anos depois ela ficou presa numa armadilha na selva. Príncipe das Savanas, que passava por ali com sua família, a viu e reconheceu. Soltou um rugido estrondoso e correu para ela. Pulou sobre a moça e a comeu enquanto dizia: Príncipe o cacete! Eu sou é o Rei da Selva…

Conto de Natal

Conto de Natal

 

Crysleine tinha pressa. Afinal, nessa véspera de Natal, após trabalhar o dia todo na faxina da casa de Dona Ivete, tudo o que queria era chegar em casa. “Bendita dona Ivete”, pensou a moça resfolegando ao peso de duas sacolas de supermercado. Crysleine já estava há mais de um ano desempregada. Quando sua fábrica fechou, parece que também fecharam todas as demais fábricas da cidade, pois nunca mais conseguiu emprego. E um salário mínimo bem que ajudava, apesar de todo mundo dizer que é muito baixo. Dava pra fazer o mercado, ao menos a cesta básica. E um pedaço de linguiça pra por no feijão. Depois que a fábrica fechou, nem faxina se conseguia mais. “Parece que as madames resolveram elas mesmas limpar suas mansões, benza Deus”, sussurrou baixinho a morena enquanto se encaminhava para a viela que dava no escadão. Escadão era o apelido da escadaria que dava acesso ao morro. Sempre vigiado por dois ou três moleques armados do tráfico, era um lugar perigoso. “Mas fazer o que? Se sair daqui, vamos ter de dormir na praia”, sorria Crysleine para sí mesma enquanto começava a subida, não sem antes ter sua bolsa revistada pelo garoto que portava um fuzil AK-47. Ali naquelas quebradas todo mundo conhecia as armas por nome. Colt 45, AK-47, Taurus 3.8. Coisa normal e sonho da garotada. Portar um aço daqueles era sinal de status no morro e fazia as moças redobrarem o interesse ao olhar para um garoto. Se, além do fumegante, o garoto ainda calçasse um tênis de marca, mesmo que feito no Paraguai, o próximo bonde do funk acompanhado da mulata mais bonita do pedaço estaria garantido. E a cabeça de Crysleine rodava de preocupação ao pensar nessas coisas. Mas a felicidade era maior do que isso. Afinal, aquelas pesadas sacolas iriam concretizar dois sonhos: uma boneca Barbie com uma coleção de vestidos para sua filha e um Transformer, brinquedo que já saíra de moda no asfalto, mas ainda fazia sucesso entre a molecada pobre. Além disso, um panetone com gotas de chocolate e um frisante de maçã faziam a moça empinar o bumbum e desfilar altiva morro acima, certa de que seria o melhor Natal de suas vidas. Crysleine só rezava para não encontrar Daclécio, pai de seus filhos e o canalha mais descarado da favela. Foi duro coloca-lo pra fora de casa, após todas as aventuras com as sirigaitas e periguetes do pedaço, além dos entreveros com a polícia. Daclécio não era flor que se cheirasse, era cocaína pura. Viciado, não trabalhava, nem no tráfico, para sustentar seu vício. Vez por outra participava de uma “empreitada” com amigos, assaltando grã-finos no asfalto, que lhe rendiam um bom dinheiro. E, vez por outra, aparecia na porta do barraco de Crysleine, implorando seu perdão e jurando ter se endireitado. Crysleine fraquejou por três vezes. Afinal, Daclécio era bom de cama e fazia a moça ver estrelas além do zinco quente que cobria seus lençois. Mas depois do terceiro vacilo, jurou que jamais abriria a porta de sua casa para o vagabundo. Trinta minutos de subida íngreme fazem qualquer coração querer saltar do peito. Mas não foi isso que mexeu com o coração de Crysleine. Foi, sim, uma aglomeração bem na porta de seu barraco. Quase sem poder respirar, a moça ainda correu até chegar à sua porta. Ali, ensanguentado, com metade do corpo para dentro da sala, jazia o corpo de Daclécio, executado dentro de sua casa pelos traficantes. O barraco estava todo perfurado de balas. Cinco homens armados até os dentes continuavam ali, discutindo o destino do cadáver. Parece que queriam queimá-lo em praça pública. Crysleine entrou e não viu as crianças. Se apavorou. Saiu para a rua desesperada. Perguntou para quem encontrava e ninguém soube dizer. Os traficantes informaram que deram mais de cem tiros na casa, pois Daclécio estava com outro traíra e reagiu. Ninguém havia visto Silmara e Toni, seus dois filhinhos, de cinco e sete anos. Crysleine pirou. Ficou mais de duas horas perambulando pela favela e nada. Pensou em ir à polícia, mas sabia ser em vão. Noite de Natal. Quem iria atende-la? Desconsolada, chorando convulsivamente, voltou pro barraco. Viu as duas sacolas jogadas no meio da sala e chorou mais ainda. Faltavam dez minutos para a meia noite e Crysleine, sentada no chão da pequena sala, chorava. De repente ouviu um miado. Baixinho. “Não tenho gato”, pensou. Será que entrou algum aqui? Seu barraco tinha três cômodos. Uma pequena sala, um quarto e uma cozinha. O miado vinha do quarto. Desconfiada, a moça foi, pé ante pé, verificar onde o bicho tinha se escondido. Abriu a porta do guarda roupa e só teve tempo de ver o brilho de uma arma apontada para ela. Gritou o mais forte que pode. Mas foi de alegria. Quatro mãozinhas seguravam a enorme pistola, que não sabiam como acionar. Seus dois filhos estavam ali, sãos e salvos. Quando viram a confusão, correram a se esconder no armário, onde acharam uma arma, provavelmente escondida por Daclécio, e que pretendiam usar para defender a mãe e as próprias vidas. A menina, esperta, imitava um gato para não se identificar para os bandidos. Crysleine os abraçou, engoliu o choro e, contente que estava ao ver o sorriso se abrir no rosto das crianças, só conseguiu dizer: “Vamos comer panetone?”

Dois irmãos


Florinda era bonita. Não, a moça era mais do que bonita. Florinda era bonita e fogosa. Mulata atrevida, daquelas altas, das ancas largas, pernas torneadas sem fim, com um olhar de derrubar passarinho do ninho. E Florinda andava pelas redondezas de Cascadura com um vestidinho esvoaçante de deixar sujeito doido. Parecia que não tinha nada por baixo. Vai ver, não tinha mesmo. Florinda era um vendaval, que ao invés de refrescar, esquentava corações de quem se atrevesse a cruzar sua frente. E quando ela andava, era só cabeça que girava, homem casado tomando beliscão, garoto enrubescendo, a mulherada morta de inveja, procurando algum defeito e disfarçando o despeito. Mas Florinda não tinha defeito. Uma celulite, uma dobrinha, nada. Era feita daquela pele cor de chocolate que cobria suas carnes duras, seus seios empinados e seu bumbum arrebitado como nenhuma obra de arte pode retratar. Não tinha pra ninguém. Qualquer um naquele bairro ficaria de joelhos a um simples sinal da moça, mas Florinda não fazia sinal pra qualquer um. Era moça direita, apesar do fogo que lhe consumia as entranhas, subindo e arrepiando até seus mamilos que, atrevidos, tentavam atravessar o fino tecido do vestido que ela usava sem soutien. E, um belo dia, Florinda cruzou com João, um auxiliar de mecânico que vivia por ali com seu macacão sujo de graxa. Tanto homem bem arrumado, charmoso, cheio de dinheiro e a moça foi se engraçar logo com João. E o encontro foi fulminante. Florinda, que morava sozinha, levou João para casa. E se abraçaram. E se amaram. Como dois animais selvagens. Rolaram no chão, na cama, na mesa, no banheiro. Foram dois dias seguidos de amor. Florinda era insaciável e João dava conta do recado, falando coisas sem nexo em seu ouvido enquanto lhe arrancava a roupa pela quinta vez. Daquele encontro, vindo de uma paixão instantânea, nasceu o amor e o casal foi morar juntos, tendo João se mudado para a casa de Florinda. Os padrinhos, que é como chamavam mesmo que não tivesse havido casamento, eram Jonas, irmão de João e Maria da Graça, sua esposa. Jonas era um molecão irresponsável, brincalhão ao extremo, que não levava nada a sério. Maria da Graça, não. Moça linda, de pele branca como o leite, os olhos claros e o cabelo castanho a lhe escorrer sobre os ombros e o colo macio, era uma mulher do lar. Extremamente responsável, quase não saia de casa, onde se dedicava às tarefas domésticas e a fazer salgadinhos que Jonas vendia nas redondezas. João, se sentindo casado e responsável, de imediato mandou Florinda parar de trabalhar. ”De agora em diante o sustento desta casa é por minha conta”, disse ele, machista orgulhoso que era. E Florinda concordou. E os dias se passaram, Florinda cada vez mais feliz e arrebatadora. À noitinha, mal acabava de entrar em casa e João era agarrado e tinha suas roupas arrancadas pela voluptuosa morena dos seios fartos. E uma nova jornada de amor começava, com gemidos misturados a beijos, pernas se entrelaçando, os corpos suados se revezando, ora embaixo, ora em cima, num furor e numa excitação incrível. Até que Florinda relaxava e quase num choro caia de lado, abraçada a João, que podia então dormir um pouco. O tempo, ah esse tempo, foi passando, e, aos poucos, Florinda foi notando que João já não tinha mais aquele ímpeto inicial. Chegava em casa sempre com uma desculpa: ora estava cansado demais, ora era a cabeça que doía. E Florinda, no auge de sua voluptuosidade, sentia falta do carinho, dos braços, da pegada de João. Mas o que fazer, senão esperar as coisas melhorarem? Bem que ela insistia, fazendo algumas carícias mais safadas no companheiro, mas nada dele reagir. E foi ai que ela começou a timidamente reclamar de João para o cunhado, que dia sim, dia não, passava em sua casa à tarde com a desculpa de levar um salgadinho. Jonas era brincalhão e não poucas vezes Florinda teve de afastá-lo, desconfiada que estava que as brincadeiras e os abraços não eram tão inocentes. Jonas era alto, forte, um homem insinuante. Quando Florinda reclamava, Jonas a segurava pelos braços e aproximava perigosamente o rosto do seu dizendo coisas como: “Cunhadinha, você precisa ficar esperta. O que precisar de mim, estou aqui. Meu irmão não é flor que se cheire.” Nessas horas, Florinda se desvencilhava rapidamente do cunhado e corria para o quarto, chorosa, a pensar o que poderia estar se passando. E cada vez mais João se afastava. E cada vez mais Jonas se insinuava. Uma bela tarde, Florinda estava com um vestidinho de algodão e alças que realçavam seus seios. Estava em pé lavando louça na pia da cozinha. De repente, sentiu dois braços que a enlaçavam por trás e lábios a lhe roçar a nuca. Seu corpo arrepiou todo, o sangue ferveu. Florinda se virou achando que era o marido e qual não foi a surpresa ao ver que quem lhe apertava contra seu corpo era o cunhado. Assustada, tentou se desvencilhar. Em vão. No fundo, sabia que queria aquilo. Jonas a beijou com sofreguidão e foi correspondido com todo o furor que a moça guardava em seu corpo. Se amaram no chão da cozinha. Florinda chorava de prazer e se entregava como nunca houvera feito com seu próprio marido. A partir desse dia, Jonas se tornou seu amante. Florinda ainda perguntou da cunhada, Maria da Graça, de quem gostava e com quem se dava bem. Mas Jonas garantiu que não tinha problema, sua mulher jamais perceberia, pois estava atarefada fazendo seus salgadinhos. Então, dia sim, dia não, logo após o almoço o cunhado aparecia e as paredes do quarto estremeciam ao som dos gemidos dos amantes. À noitinha, quando João chegava, Florinda o recebia como se nada tivesse acontecido. João, sempre cansado, ia dormir e a rotina seguia seu rumo. Rotina só interrompida quando os quatro faziam um churrasquinho, na casa de um ou de outro, momento em que tanto Jonas como Florinda pareciam artistas de cinema, de tão bem que atuavam, fingindo não ter mais do que uma insossa amizade entre cunhados.
E quanto mais o tempo passava o romance dos amantes evoluía. Mas nunca pensaram em nada mais sério do que aqueles encontros casuais na casa de Florinda.
E eis que um belo dia João chega em casa do trabalho, com aquele ar cansado de sempre e pergunta de sopetão para a mulher, com um estranho e irônico sorriso:
“E então, Florinda, estás gostando?” 
“Gostando do que?”, respondeu a moça um pouco assustada com a pergunta.
“Ora, de transar com meu irmão. Ou você acha que não sei?”
Florinda enrubesceu, engasgou e perdeu a fala. Realmente a cena foi tão inesperada que a moça perdeu o chão a seus pés. Perplexa, ainda tentou contestar:
“Ó, João, você está louco, vendo coisas?”
“Minha cara, não adianta dizer nada, eu sei de tudo desde o princípio.”
“Como assim, seu louco desgraçado, e por que não reagiu, não falou nada, não tomou uma providência?”
“É porque esse teu romance com meu irmão caiu como uma luva pra mim. Todas as terças e quintas, enquanto vocês transavam, sabe onde eu estava? Na casa de meu irmão, fazendo amor com Maria da Graça, minha grande paixão de criança.” (Percy Castanho Jr.)

Alguém conhece um bom chaveiro?

Alguém conhece um bom chaveiro?

 

É que minha casa “tem um cômodo que eu nunca entrei”.

Tô com vontade de dar uma investigada.

Minha mulher disse pra eu não entrar lá, que ali mora um monstro.

Vocês já viram monstro beber whisky?

É que ela sempre leva uma dose de meu whisky com uns acepipes e deixa na porta.

Passa em tempo e as coisas desaparecem.

Às vezes, quando minha mulher sai (pelo menos, acho, porque ela some), ouço o monstro fazendo barulho dentro do cômodo. É um tipo de grunhido misturado com gemido.

Sei lá. Tem de tudo neste mundo. Tô com o maior medo.

Não fosse minha mulher pra me dar uma força, não sei o que seria.

O pior é que estou gastando a maior grana com whisky, logo eu, que nem bebo.

 

Você conhece um bom chaveiro pra abrir logo esse cômodo? Ou é melhor não “incomodar”, desculpando o trocadilho…