Você prefere ser rico, bonito ou inteligente?

Você prefere ser rico, bonito ou inteligente? Ao escolher uma opção as outras duas serão opostas. Se escolhestes a riqueza, serás rico, porém feio e burro. Não vejo muito futuro pra ti. Feio como um prato de buchada de bode em noite de tempestade, e ainda por cima burro como uma anta – ou vice versa -, serás chifrado pela gatinha piriguete filha do teu vizinho – que tu fica espiando de rabo de olho -, que lhe tomará toda a grana mais rápido do que demoro pra te chamar de trouxa. E, assim, brevemente ficarás feio, burro e pobre. Se escolhestes a beleza, também não vejo grande futuro para tua venerável pessoa. Serás belo, pobre e burro. Se, com essa tua belezura principesca toda, conseguires ficar do lado de cá – o lado hétero, meu – , pegarás um coroa abonado ou uma balzaquiana gostosona e abonada, que te usará enquanto fores filé mignon e te largará assim que entrares no osso, momento em que serás largado às traças, já carcomido, feio, pobre e burro. Certamente a melhor opção é a inteligência, pois com ela tu conquistarás a riqueza de espírito e a beleza da cultura, que te farão cada vez mais inteligente, rico, belo e desejado pelas mulheres e pelos homens. Bom, se não estou lá muito certa disso, ao menos esse pensamento é que serve de consolo às pobretonas feiosas que nem eu… Nossa sorte é que no meio da salada geral sempre sobra algum rabanete ou couve-flor…

A magnitude do nada

Devia ser perto do meio dia. O sol batia no para-brisa do carro com tal violência que mesmo o possante ar condicionado mal dava conta de refrescá-lo. Estávamos em meio a uma de nossas loucas viagens, em pleno deserto de Death Valley – o temído e perigoso Vale da Morte -, em Nevada, indo para a Califórnia. De repente me deu vontade de ver e fotografar alguma tropa de cavalos selvagens, daqueles que os índios domavam e montavam com tanta habilidade. Esse repentino desejo era certamente a vontade de voltar ao passado, me ver sentado numa poltrona do Cine Jardim, na Fradique Coutinho, assistindo a um Faroeste de primeira. Como Dora também é cabeça de vento e topa tudo, bastou sinalizar para ela concordar e eu tirar o carro da estrada e virar o nariz da pobre SUV para as areias tórridas e sem destino do instigante deserto. Lá não pega celular e não tem uma viva alma nem na estrada, imagine no meio daquele mar de areia e pedra. E se o carro quebrar? Bom, Graças a Deus não quebrou e estamos vivos. E lá fomos nós, literalmente aos trancos e barrancos. Uns quarenta minutos deserto adentro, paramos para tomar um lanche num Saloom, que mocinhos e bandidos também fazem isso. É claro que o saloom foi obra de minha imaginação. A mesa era o capô fervendo do carro. E saimos a pé para sentir melhor a temperatura… Então, em dado momento, quando Dora sumiu atrás de umas formações rochosas procurando uma caverna, olhei para aquele horizonte sem fim e comecei a pensar sobre a magnitude do nada. Geralmente não damos atenção ao vazio, ao silêncio, ao nada. Sempre queremos tudo. Não por ganância ou egoísmo, a não ser em casos específicos. Mas é que nos acostumamos ao movimento, à busca desenfreada pelas coisas, sem nem mesmo saber porque o fazemos. E, muitas vezes, o nada é mais significante do que o tudo. Veja na música, por exemplo, como as pausas, o silêncio repentino, o nada, valorizam a harmonia e a melodia. E quando você quer dormir e algum carro dispara o alarme? Um, dois minutos e sua cabeça parece querer estourar. De repente, o silêncio. Você não escuta mais nada. Seus instintos, que estavam concentrados naquele turbilhão invadindo seus tímpanos parecem ronronar de felicidade pela paz que te invade a alma. E o que é isso senão o nada? Aquele momento em que você não pensa, não se preocupa, ninguém te interrompe. A sensação do nada. Essa é a magnitude a que me refiro. Nosso corpo e nossa mente, principalmente nos dias atuais, estão em constante ebulição, com informações sobre tudo e sobre todos chegando a todo instante. Não fomos concebidos para viver esse pandemônio. Mas quem quer ser um alienado? O que dirão nossos amigos da Rede? É preciso estar atento e forte, como já dizia o poeta. Mas a verdade é que um pouco de quietude e paz faz muito bem à nossa mente, ao nosso corpo e à nossa alma. E, de repente, lá de cima de uma rocha, Dora grita, toda feliz: Avistou, no meio do nada, a uns dois ou três quilômetros de distância, uma tropa de cavalos selvagens digna de um filme de John Wayne. Guardamos as sobras do lanche, embarcamos no fiel bólido e pisamos fundo no acelerador dos sonhos, cavalgando um corcel pampa rumo ao passado, tão próximo e tão distante. Aiou, Silver!

O nó da gravata

Já comentei isso aqui. Mas precisamos voltar de vez em quando ao mesmo assunto porque, mesmo sendo uma fonte inesgotável de besteira, minha cabeça não é um computador de última geração, é no máximo um robocop gay, só que não, como se dizia nos primórdios destas redes. E é assim que, quando era jovem, comprava religiosamente nas bancas, me parece que a cada duas semanas, uma revista, a belíssima coletânea de histórias detetivescas chamada Mistério Magazine de Ellery Queen (EQMM). Era um espetáculo. Cada revista vinha, salvo engano, com cinco ou seis contos, de altíssima qualidade. Minha memória para enredos, filmes, livros, músicas, é péssima, graças a Deus, pois isso me permite jamais plagiar alguém. Não lembro nem de minhas próprias músicas. Sempre foi assim. But, uma das histórias que li em Ellery Queen ficou marcada em minha memória por um detalhe: havia um criminoso, que praticava seus ilícitos diariamente, e o qual ninguém conseguia descrever. Não conseguiam dizer se era alto ou baixo, gordo ou magro, branco ou negro. Após muitas elucubrações, o herói desse conto, um detetive famoso de quem me escapa – e escapa bem pra longe, talvez pra Tailândia – o nome, descobriu uma coisa em comum: todas as vítimas só se referiam à gravata do indigitado. Um dizia: “só lembro que usava uma gravata berrante, cor de abóbora” E outro: “não me lembro de nada a não ser da gravata, vermelha com enormes bolas azuis”. E nosso herói, a partir dai, descobriu a estratégia do bandido: usar roupas discretas e cara de paisagem associadas a uma gravata super berrante, daquelas de para trânsito em Manhattan. Assim, todas as atenções iam para o penduricalho pescocífero e as vítimas esqueciam do principal. Legal, né? Bons tempos em que ainda não haviam câmeras chinesas de reconhecimento facial, podíamos entrar nos motéis cumprimentando todo mundo… Saudades de Ellery Queen. E por que esse longo introito (palavra em desuso)? É por causa dos delinquentes do Centrão (leia-se PP) que foram tornados Réus ontem. Eles não tem cara, não tem rosto, não tem fisionomia, não tem personalidade. Posso olhar duzentas vezes para suas fotos que não os identifico em meio à massa amorfa do Congresso. Usam a mesma estratégia do criminoso da história. São invisíveis, individualmente, para não chamar a atenção. Mas, espertamente, apesar de que aposto essas toupeiras jamais leram Ellery Queen, praticam seus desmandos usando uma gravata berrante, um acessório pra desviar nossa atenção chamado Centrão. Ainda bem que por aqui podemos contar com nossos brilhantes detetives, heróis de carne e osso – como Sergio Moro e Daltan Dalagnol –, que parecem saídos das páginas de Ellery, para dar um fim a esse bandidos e ao crime, organizado ou não. Olho no Coringa, gente, que Batman sozinho não dá conta!

O cofre

Digamos que ao nascer você recebesse um cofre cheio de riquezas: dinheiro, ouro, diamantes. Mas que não pudesse ver o quanto continha seu interior. Bastava enfiar a mão e pegar, quanto e quando tivesse vontade. O que você faria? Pegaria tudo de uma vez? Gastaria tudo de uma vez? Ou pegaria um pouco por dia? Ou não gastaria nada? Acontece que VOCÊ RECEBEU essa fortuna ao nascer. E o que contém esse cofre? Simplesmente a maior riqueza que você poderia um dia sonhar. Que vale mais que ouro, joias, pedras preciosas, dinheiro. Vale mais do que o poder de um presidente, de um rei, de um marajá. Vale mais do que o mais ambicioso de seus sonhos impossíveis. Sim, porque essa pequena fortaleza, cujo segredo é indesvendável e guardado a sete chaves por Deus, contem o Tempo. O Tempo, simplesmente o bem mais valioso que se pode obter e que, quando acaba, faz tudo o mais perder o sentido. Por isso, use-o com parcimônia. Agradeça todos os dias por ainda ter reservas em seu cofre. Não o desperdice. E procure ser seu amigo, ter mais prazer ao seu lado, dando valor às pequenas coisas e às grandes amizades, ao invés de reclamar de sua rápida passagem.