Tuareg – Capítulo 2

Tuareg – Capítulo 2

 

Os três mosqueteiros

 

 O velho carro, fazendo um barulho ensurdecedor vindo provavelmente de um escapamento furado, contornou a praça e desapareceu na noite.

 Para seus ocupantes habituais, três amigos inseparáveis, aquele também era um dia como qualquer outro, um simples rabisco a lápis no calendário torto da parede. E, como sempre, mais do que nunca, um dia dedicado à procura do desconhecido, a busca constante por emoções ainda não vividas, aquelas dos encontros casuais, que poderiam transformar em realidade suas torturantes e solitárias noites de ócio e  tédio. Mais uma jornada em busca dos insondáveis segredos que faziam do sexo um mistério, tão próximo e tão fugaz quanto a névoa que os envolvia: se a tomassem nas mãos nada teriam, a não ser o incontrolável e obsessivo desejo de ter alguém entre seus braços juvenis, nem que fosse por um segundo. Talvez mais para dar mostras de sua virilidade, para se afirmar definitivamente como homens perante seus pares e perante  si mesmos, do que pela impetuosidade de seus hormônios.

Pois, ainda que do alto de seus dezoito ou vinte anos se vangloriassem de suas inebriantes experiências e da grandiosidade de  suas empreitadas sexuais, a realidade é que eram três  neófitos na arte da sedução.

– Athos…

– Porthos…

– D’artagnan!

Arnold, o mais velho, 20 anos completos há menos de um mês, mantinha seus cabelos loiros, raros por aquelas bandas, com tamanho suficiente para levar à falência os barbeiros e à loucura os pais, respeitáveis e conservadores cidadãos de classe média. Madeixas, aliás, com tamanho inversamente proporcional a seu juízo. Arnold via-se como um Apolo, queria a todo custo ser modelo e, na condição de mais velho, liderava o grupo. Ao menos, era o que achava. E quando os três amigos invocavam o nome dos mosqueteiros, dando-se as mãos como num ritual secreto, Arnold era o que sempre se recusava a ser um humilde Aramis, dizendo alto e bom som o nome do quarto elemento da “tríade”, querendo se destacar como o galã, no que  era sempre contestado pelos outros.

– Mas você não se emenda mesmo, hein, Arnold?, reclamou Charles. – Você é simplesmente Aramis. Somos os três mosqueteiros, não quatro…

Charles, o segundo, e esse era seu apelido,  mal tinha completado 19 anos. Era o mais calmo e sério dos três, se é que alguém nessa idade pode ostentar tais comportamentos. Parecia mais velho do que sua certidão de nascimento registrava e invariavelmente era quem impedia que os amigos se metessem em encrencas com mais frequência. Tímido, por trás dos óculos de aros redondos de metal polido, olhos castanhos, astutos e inteligentes a tudo observavam calados, como a misteriosa coruja que habita o velho campinho de futebol atrás de igreja. Como calados, se olhares não falam? Pois falam, e como! Só que, sempre francos, ao contrário dos lábios não conseguem esconder a verdade. Por isso, para não revelar sua alma, seu olhar permanecia distante. Sua mente, sim, trabalhava, anotando  os movimentos, as intenções, as atitudes. Como um computador, tinha memória invejável e fazia cálculos rápidos, muito rápidos. Não cálculos matemáticos, que não eram sua especialidade, mas elucubrações mentais sobre as possibilidades de sucesso em suas empreitadas. Nem sempre acertava, mas quando isso acontecia, era bonito de se ver. De David, o terceiro e mais falante, não se pode fazer uma descrição precisa sem um lugar de destaque à sua voz, cantada e esganiçada. O mais novo dos amigos, dezessete para dezoito anos, falava como se estivesse numa feira livre anunciando legumes ou peixes. Sua pele esbranquiçada, deixando transparecer as veias em tons azulados, como se fossem se romper a um simples aperto de mão, denunciava o excesso de noitadas e a falta de sol. Inquieto, assustado e com rompantes de valentia, não se conformava em ser o menor da turma e fazia valer sua estridência para impor respeito. Quase nunca conseguia. Quase, como se verá. E era de David, o menor de idade, o carro da turma. Dele, não. De seus pais, feirantes bem sucedidos. E, cuja atividade explicaria a matraca na voz do filho, não fosse por um simples motivo: o garoto jamais frequentou uma feira para olhar ou comprar, quanto mais para vender qualquer produto. Ainda mais peixe! No máximo, matava a fome da madrugada num pastelzinho antes de voltar para casa, momento em que seus pais já deveriam estar montando sua barraca. “E não faziam mais que a obrigação”, debochava ele. 

Acotovelados dentro do velho fusca bege, entreolhavam-se as quatro garotas e os três rapazes. As garotas, preocupadas com seu próximo e desconhecido destino. Os rapazes, mais aflitos do que a normal angustia pela falta de dinheiro e gasolina,  não escondiam a ansiedade em encontrar um lugar ermo,  sossegado e, se possível, seguro. O objetivo, juravam de pés juntos, era apenas se conhecer melhor. Não mais que isso, uns abraços, uns beijinhos. E só. Isso é o que diziam. E como mudam as expectativas, dependendo do ponto de vista. Na visão das garotas, pouco já seria muito. Na dos rapazes, tudo ainda seria pouco. No íntimo, esperavam mais, muito mais, sempre mais.  Como um espadachim às cegas, o  limpador de para-brisa esgrimia desesperada e inutilmente, tentando abrir passagem em meio à névoa. Só conseguia, com seu ranger monótono, aumentar o ensurdecedor ruído do motor sobrecarregado do velho fusca, que desapareceu na neblina carregando os sete jovens.

 

 

Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 2

 

Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 2

 

 

Rotina

 

 

 

 

Eram quase dezoito e trinta da tarde de um dia de semana qualquer, quando me lembrei que já passava da hora de deixar o carro na Concessionária para revisão. Excepcionalmente nesse dia estava sem meu motorista, razão pela qual, embora contrariado e fugindo totalmente a meus princípios, fui sozinho.

Quando deixei a Concessionária, já havia escurecido. Procurei um táxi e não vi nenhum. Descobri então que estavam em greve. Comecei a caminhar sem rumo, pois há mais de trinta anos não tomo um ônibus, acho até que jamais andei numa dessas geringonças coletivas. Moro numa cidade litorânea, situada numa ilha – refúgio de abastados -, na qual só se chega por helicóptero, barco ou estrada. Após quarenta minutos esperando por uma condução que não vinha, num ponto cheio de gente esquisita, – desconfio até que são trabalhadores -, me informaram que ônibus não atravessam balsas, ou seja, não tinha maneira de chegar em casa. A bem da verdade, ônibus em nosso paraíso seria recebido com a mesma desconfiança que se dispensaria a um OVNI. Como a balsa ficava longe de onde eu estava, fui informado que a única solução possível no momento era pegar um serviço de barcas que atravessa o braço de mar que me separava de casa, e que eu jamais sonhara que existisse.

– Mas aonde pego esse barco?, resmunguei.

– O terminal fica a um quilômetro e meio daqui, seguindo por essa rua que beira o canal. Mas cuidado que esse horário é meio perigoso, senhor – me assustou um garoto que passava.

“Pronto! Lá se vão meus anéis, carteira Pierre Cardin, Iphone, notebook, gravata Hermés, sapato de crocodilo, enfim, todos os equipamentos básicos e indispensáveis a uma pessoa na minha posição”, pensei com meus botões de madrepérola, enquanto ainda estavam ali, ornamentando a camisa de seda javanesa, já meio úmida de suor.

Ainda tentei convencer alguém no ponto a me acompanhar, mas como começaram a me olhar de modo esquisito, desisti.

Olhei à minha volta, respirei fundo e… senti o cheiro. Era como se todos os maus odores do mundo tivessem convergido e concentrado seus esforços em impregnar minhas narinas. Aquele odor insano provavelmente vinha das águas fétidas do canal que eu teria de percorrer e estava ali todo o tempo. Eu é que não sabia. Cobri o nariz com meu lenço Yves Saint Laurent, que seria atirado ao lixo assim que encontrasse novamente a civilização, e comecei a caminhar.

Percebi então que uma multidão de gente mal arrumada, mal ajambrada, mal remunerada, caminhava apressadamente ao meu lado, indo e vindo. Perguntei a um passante o que estava acontecendo. Ele, surpreso como se estivesse vendo um extraterrestre, mansamente retrucou:

– Nada, senhor. É o povo indo e voltando, para o trabalho, para a escola, para casa.

Quase tive um ataque:

– Quer dizer que isso é normal? Essa aglomeração? Esse barulho? Esse cheiro?

O rapaz não me ouviu. Já estava longe, em seus passos apressados, talvez indo vigiar uma fábrica. Quem sabe até a minha fábrica! Como posso depender dessas pessoas?

A paisagem ao meu redor consistia da rua que se estendia no horizonte a perder de vista, calçada por paralelepípedos mal juntados que me faziam tropeçar a cada dois metros. Ao centro, como um Sancho Pança fielmente a acompanhá-la, seguia aquele fétido canal, represando entre suas lodosas paredes de concreto os milhões de litros de água barrenta e salobra, que mudavam de rumo ao sabor das marés. A margeá-la, uma série interminável de casas e barracões antigos, que serviam de abrigo para hospedarias, pensões e pardieiros diversos, além de uma infinidade de botecos, botequins, trailers lanchonetes, carrinhos de hot-dog, barracas de pastel e centenas de camelôs vendendo produtos piratas.

“Aposto que tem gente pirateando os produtos que fabrico. Gente desonesta”, pensei em voz alta. Concordo que eu também sonego um pouquinho de impostos, não pago os royalties corretamente e emito algumas notas frias, mas ao menos gero empregos. Não posso ser chamado de produtor pirata, se bem que já respondo a uns quatro processos. “Mas pra isso é que serve um bom advogado, é ou não é?, meditei, assustado.

“Como pode um ser humano comer ou beber num lugar desses? Não é muito melhor entrar num restaurante francês com toalhas de linho e talheres de prata e ser servido à la carte, escolhendo um Steak au poivre? Sinceramente não entendo essa gente…”, meus pensamentos iam e vinham, impregnados de revolta.

“E esse cais que não chega nunca?”, grito. Estou cansado e, principalmente, faminto.

Depois de trinta minutos caminhando e tentando inutilmente acelerar o passo antes que escurecesse, já não olho as barracas com nojo, mas curiosidade.

“Não é possível que todos esses comerciantes sejam anti-higiênicos. Deve haver alguma dona de casa que se preocupe com a limpeza por aqui”, racionalizava enquanto caminhava devagar, quase parando, olhos pregados numa estufa com salgadinhos diversos. Posso quase jurar que vi uma coxinha de galinha sorrindo pra mim. Voltei pra conferir e, cabisbaixo, pedi sussurrando, meio que envergonhado:

– Por favor, me veja uma coxinha e um refrigerante.

– Só tem suco de caju e abacaxi – vociferou a atendente dando-me as costas.

Antes que me arrependesse a moça estava de volta portando um bolinho gorduroso, que me entregou envolto num guardanapo de papel encharcado, juntamente com um copo descartável contendo um líquido amarelo como hepatite, extraído de uma máquina giratória que parecia exercer um extraordinário poder de atração sobre moscas.

Tive vontade de jogar aquele lanche no meio do canal. Mas resisti. E então fechei os olhos e dei a primeira mordida.

“Devo estar sonhando”, suspirei. “Que néctar dos deuses. Que massa leve. Que tempero. Macia por dentro e crocante por fora. É a melhor coxinha que já comi na vida.”

“Deve ser a fome. Não vou dar o braço a torcer nem por um segundo”, enfezei meio sem jeito.

E foi assim que, mantendo minha postura, paguei a conta, – não sem antes comer um pastel de carne, sabe-se lá de que animal -, e fui embora.

Caminhei mais quarenta minutos e cheguei numa espécie de píer onde atracavam pequenos barcos a transbordar de gente. Aquilo parecia um formigueiro. Dei uma moeda ao piloto da catraia como se estivesse pagando o próprio Barqueiro das Almas e embarquei fazendo o sinal da cruz.

Era inacreditável. Naquele corredor estreito, onde um nadador teria dificuldade em dar braçadas sem tocar as bordas, barcos carregando multidões cruzavam-se às dezenas, enquanto seguiam pelo estreito canal por uns dois quilômetros até desembocar no mar. Em alguns trechos o canal era coberto e, conforme a maré enchia, tínhamos que nos curvar e abaixar a cabeça para não batê-la no teto de concreto. Lembrou-me Veneza. Mas só por um instante, pois Veneza é Veneza e não pode ser comparada a este bairro miserável, ainda por cima poluidor do exclusivo condomínio onde moro. 

Após intermináveis dez minutos – tomado de assalto por uma estranha mistura de horríveis sensações de náusea e pavor -, e durante os quais o pequeno barco lotado atravessou aos trancos e barrancos o canal de mar serpenteando por entre imensos navios cargueiros, finalmente chegamos à ilha onde moro. Mais uma caminhada e, quinze minutos depois, cheguei, são e salvo, à minha mansão.

Um de meus empregados veio atender à porta e, após ouvir com um sorriso nos lábios meu breve e assustado relato, observou com desdém:

 

– Mas doutor, essa é a rotina que cumpro todos os dias para chegar ao local de trabalho, em sua casa… Normal!

Meia volta ao mundo sem avião – Capítulo 2

Meia volta ao mundo sem avião – Capítulo 2


St. George,  Granada, Caribe.

 

Com uma beleza de tirar o fôlego, Granada – conhecida em todo o mundo como a
“Ilha das Especiarias” por sua importante produção de noz-moscada, canela,
gengibre, baunilha e cravo – recebe os turistas de suas praias paradisíacas
e resorts de luxo com uma variedade de paisagens, aromas e sabores que
despertam os mais resistentes sentidos.
Situada a 160 km do litoral da Venezuela, esta pérola do Caribe, formada
pela Ilha de Granada e pela metade sul das Ilhas Granadinas, conta com
cenários deslumbrantes, capazes de proporcionar momentos inesquecíveis ao
contato com a natureza, além de muita diversão para toda a família e para todos os gostos.
Descoberto por Cristóvão Colombo em 1498, o arquipélago de 344 km² e 110 mil
habitantes é um refúgio ideal para quem gosta de aventura. Suas paisagens
repletas de montanhas, vulcões, florestas tropicais e cachoeiras que dividem
espaço com 45 praias de areias brancas e nove de areias pretas –
consideradas as melhores da região – permitem ampla gama de atividades ao ar
livre.
Com clima quente e úmido o ano inteiro, as três ilhas – Granada, Carriacou e
Petite Martinique – são destino certo para os amantes da combinação sol,
areia e mar. Entre as mais badaladas praias, a famosa Grand Anse Beach, de
três quilômetros de extensão, é a mais bonita do País e conquista seus
visitantes com serviços especiais, como passeios de barco, aluguel de
cadeiras, restaurantes e lojas de artesanato.
Tão bonita quanto, porém com menos turistas, a Morne Rouge Beach, localizada
no lado oeste da ilha de Granada, é uma opção para quem deseja sentar,
relaxar e desfrutar do sol do Caribe. Com mar de água rasa, o local também é
uma boa pedida para as famílias com filhos pequenos.
Já na ilha de Carriacou, o destino obrigatório é a Paradise Beach, um
verdadeiro pedacinho do paraíso com recife de proteção que permite aos
visitantes nadarem em águas bem calmas.  Em Petite Martinique, a dica é
explorar as ilhotas e belas praias da Aldeia de Paradise.

 

Em nossa estada optamos por ficar à beira mar num resort, na famosa Praia de Grand Anse Beach, desfrutando das águas mornas azuis turmalina do Caribe, enquanto tomávamos um drinque. Incomparável!

Embora Granada não tenha a mesma fama de outras ilhas quando o assunto é mergulho, o arquipélago também oferece boa variedade de espécies marinhas e
locais próprios para a prática subaquática. Por isso, os apaixonados pelo
esporte devem marcar presença no sul da Grand Anse Beach e nas praias de La
Sagesse e Underwater Sculpulture Park, localizada na Molinière Bay do País.
Além disso, vale a pena visitar os resorts, centros de esportes aquáticos e
lojas de mergulho, presentes principalmente na Grand Anse Beach e na Ilha
Carriacou, para curtir aventuras no fundo mar.

Um pouco de história:

A língua oficial é o inglês. Fala-se também o Patois, dialeto franco-africano.

A população é predominantemente negra e bastante receptiva.
A forma de governo adotada em Granada é a monarquia
parlamentarista . Granada integra a Comunidade Britânica de Nações, e o
monarca britânico, o chefe de Estado . O governo é dirigido pelo
primeiro-ministro , responsável ante o Parlamento, que se compõe de 15
representantes eleitos por cinco.
Granada foi descoberta em 15 de agosto de 1498 por Cristóvão Colombo , que lhe deu o nome de Concepción . Os espanhóis, porém, não tentaram colonizá-la: manteve-se em poder dos caribes por mais de um século e meio.
Em 1650, o governador francês da Martinica fundou uma colônia em Saint
George’s e exterminou os índios caribes . Até 1762, a ilha permaneceu sob
domínio dos franceses , que importaram escravos negros para a plantação de
cana-de-açúcar . Nesse ano a ilha passou a depender da coroa britânica ,
que a perdeu após um ataque francês em 1778 e a recuperou definitivamente
em 1783, pelo Tratado de Versalhes .
Entre 1795 e 1796, ocorreu uma rebelião de escravos, fomentada pelos
franceses e sufocada pelos britânicos . Em 1833 aboliu-se a escravidão .
De 1885 a 1958, Granada foi o centro administrativo das ilhas britânicas de
Barlavento e de 1958 a 1962 membro da Federação Britânica das Índias
Ocidentais. Cinco anos depois tornou-se um dos Estados Associados das
Antilhas Britânicas, com regime autônomo.
A 7 de fevereiro de 1974 transformou-se em estado independente . Em 1979,
um golpe de Estado de inspiração marxista levou ao poder Maurice Bishop, que
estreitou os laços com Cuba e a União Soviética. Uma cisão dentro do grupo
governante desembocou na insurreição dirigida pelo general Hudson Austin em
outubro de 1983, que deu lugar ao regime atual.

Willemstad, Ilha de Curaçao, Mar do Caribe

 

Curaçao é uma pequena joia incrustada em meio ao azul do Mar do Caribe. Antigamente pertencia às Antilhas Holandesas, de onde vem sua colonização, que se seguiu à conquista espanhola.

Como não podia deixar de ser, nosso destino era a praia, mais precisamente o aquário, onde golfinhos fazem exibições de tirar o fôlego. Depois passamos a tarde em preguiçosas cadeiras à beira mar tomando um drink feito com o licor de cascas de laranja que é o orgulho da ilha e leva seu nome: Curaçao.  O que faz
Curaçao tão especial entre as ilhas do Caribe? A autenticidade. Durante
séculos, foi construída uma rica cultura baseada na história e na hospitalidade.
Seu patrimônio é europeu e africano, representando mais de 50 nações.
Na ilha fala-se holandês, espanhol e inglês, e também a língua local o
papiamento, um colorido dialeto crioulo.
A melhor parte de explorar Curaçao é que tem que ser descoberto, como um
exclusivo sitio apartado do Restodas “pequenas ilhas ABC” Aruba, Bonaire, e
Curaçao – este escondido pedaço de paraíso é o segredo melhor guardado do
Caribe. A Junta Turística de Curaçao está sempre presente e ajuda turistas  a descobrir todas as maravilhas de Curaçao. As pessoas locais e os visitantes se misturam em
harmonia na ilha. Pode-se relaxar e descansar em meio aos simpáticos curaçoenses trabalhando, jogando, e desfrutando da vida ao máximo, da mesma maneira que eles fizeram durante gerações inteiras. Os ilhéus adoram sociabilizar, e assim que o veem, agitam a mão e lhe dizem amistosamente “Bon Bini!” (bem-vindo!) ou
“Kon ta bai?” (Como vai você?). Curaçao, um lugar para se voltar mais vezes!

 

 

 

Orangestad, Aruba, Mar do Caribe

 

 

 

Nossa próxima parada foi em Aruba, outra pérola do Caribe. Em Oranjestad, a capital, pode-se apreciar as construções coloridas de influência holandesa, já que a ilha faz parte dos Paises Baixos. Além de compras na simpática cidade, fomos a duas praias famosas, Palm Beach e Baby Beach. O Papiamento, a língua predominante entre os nativos, é bastante parecida com o português, mais uma mistura de espanhol. Treinando um pouco dá para se comunicar bem com os simpáticos habitantes. Da cidade partimos para Palm Beach, uma das mais famosas praias do Caribe. Em Palm Beach, pode-se encontrar alguns dos resorts que fazem a fama de Aruba. Confortavelmente instalados em espreguiçadeiras à beira-mar, ficamos nos divertindo com as peripécias de alguns malucos à bordo de uma espécie de helicóptero movido a jato d’água. Fizemos vários passeios de barco, jet ski e uma espécie de banana boat redonda que te joga com força na água e faz rodopios a uma velocidade alucinante. A cor e a temperatura da água seguem o padrão do Caribe, simplesmente deslumbrantes. Um jantar verdadeiramente reconfortante à base de frutos do mar foi a forma que encontramos para nos despedir de lugar tão agradável.  Aruba é a ilha de maior retorno de todo o Caribe. A grande maioria das pessoas volta à ilha duas ou três vezes. Sinal de que o passeio vale a pena. 

 

 

GeorgeTown, Gran Cayman, Mar do Caribe

 

 

Muitos já ouviram falar de Gran Cayman, a ilha dos investimento milionários, um paraíso fiscal repleto de bancos, seguradoras e escritórios de alto luxo, lugar onde grandes fortunas são guardadas devido às facilidades encontradas na fiscalização e aos baixos impostos. Nada mais verdadeiro. Os maiores e mais modernos transatlânticos do mundo costumam se cruzar no porto de Georgetown. Quando chegamos, já estava atracado o maior navio do mundo, um gigante. O nosso, que não fez feio, está entre os cinco maiores. Lado a lado, representavam uma cidade independente, com milhares de turistas de todo o mundo. Uma beleza. E a saída de um navio é sempre uma festa, com os apitos soando forte e as pessoas acenando. Andando pela cidade você percebe a quantidade de carros luxuosos, joias e artigos de luxo, tanto à venda como sendo usados pelos mais abastados. Contrastando com Aruba e Curaçao,  Cayman respira a cultura  inglesa, sua língua principal. Aqui você vai viver cercado por iguanas, arraias e tartarugas gigantes. Nadamos no meio das arraias e das tartarugas, uma experiência fantástica, apesar de um pouco assustadora. Mesmo junto ao porto as águas claras do Caribe lhe permitem visualizar cardumes enormes de peixes das mais variadas espécies nadando tranquilamente. Pode-se notar a preocupação dos locais com a preservação do meio ambiente, tanto nesta ilha como em todas as outras do Caribe.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Falmouth, Jamaica, Mar do Caribe

 

 

E então, passando ao largo, mas bem pertinho de Cuba, chegamos ao colorido mundo da Jamaica. Tudo o que você já ouviu sobre a ilha dos dreadlocks, aqueles cabelos enrolados em tranças fantásticas, de Bob Marley, de Jimmy Cliff, é verdade. Esta é a terra do colorido, da música, da alegria e da tranquilidade. Como não poderia deixar de ser, da cannabis também. Mas é bom ficar esperto. No porto de embarque há um cartaz que diz algo como: “Boa viagem. Esperamos que tenha aproveitado a estadia. Mas lembre-se que portar drogas é crime e se você for pego com alguma espécie de droga no porto ou no navio será preso…” Isso é para arrefecer o ânimo dos turistas mais animadinhos.

Aproveitei a estada na Jamaica para cumprir o segundo estágio de meu curso para ser um homem destemido! Sim, o primeiro estágio foi no submarino, lembram-se? Aqui, resolvemos fazer um passeio à cavalo proporcionado pelo navio. As imagens mostravam intrépidos jovens cavalgando fogosos cavalos à beira mar. Achei incrível e, como adoramos cavalos, resolvemos experimentar. Assim, pegamos um ônibus com mais alguns passageiros e lá fomos nós, para o outro lado da ilha. Demoramos quase duas horas passando por paisagens fantásticas, ora do interior, ora do litoral, com o ônibus serpenteando por uma estradinha não muito confiável e bastante perigosa. Afinal chegamos ao sítio, uma espécie de fazenda, com muitos animais belíssimos, Após um lanche, selamos nossos animais e saímos para um passeio por trilhas na mata. Todo mundo em fila, sempre ciceroneados por meia dúzia de legítimos peões jamaicanos, todos de dreadlocks, que cantavam e davam risada em altos brados. Acho que estavam sob os auspícios de Bob Marley… Alguns galopes, alguns trotes, mas nada que oferecesse maior risco. Eu já estava ficando meio decepcionado com o passeio quando chegamos a uma praia. Lá, meus amigos, acreditem se quiser. Descemos dos cavalos e pegamos outros, bastante ariscos, que tivemos que montar em pelo, sem sela e sem estribo,  somente com o freio. Era coisa pra gente experiente. A maioria desistiu. E então, sob o comando dos dreadlocks, começamos a galopar em direção ao mar. Imaginei que, lá chegando, continuaríamos o galope pela areia. Pois sim. Os doidos entraram galopando mar a dentro e nós, mais loucos ainda, fomos atrás. O passeio consistia em ir bem longe mar a dentro, mas bem longe mesmo, com os cavalos nadando a todo vapor e nós nos equilibrando em cima, apenas segurando as rédeas. E era um tal de cavalo a nadar, mergulhar, bufar, pular onda e fazer curvas e acrobacias, sempre ao som da cantoria dos simpáticos e doidões jamaicanos. Para mim, que não sei nadar, vocês podem imaginar o que é cavalgar em alto mar sem salva vidas, sem nada. Só com a coragem, que já não é muita… Do alto de meu alazão vi uns três infelizes perderem o equilíbrio e mergulharem no mar, sendo resgatados pelos intrépidos e doidões jamaicanos. Mas foi uma aventura e tanto, incrível mesmo. Por isso, acho que mereci passar para o terceiro estágio no meu curso de Super Homem!

Exaustos, mas extremamente satisfeitos, voltamos para a cidade, onde passeamos muito e curtimos as tradições da paradisíaca ilha de Jamaica, sempre ao som de um reaggae bem executado.     

 

 

 

Volta às Américas – Capítulo 2

Volta às Américas – Capítulo 2

 

Nem o oceano escapou dos brasileiros…

 

O brasileiro realmente é um ser  que não nasceu, foi inventado ou trocado por cinco tampinhas de Coca-Cola. Pois não é que comecei a ouvir pelos corredores do navio que um dos melhores lugares pra se comer aqui era o Restaurante Oceano? E eu, o cara mais curioso e fuçador do mundo, me sentindo o mais mal informado dos seres humanos por não ter conhecido o recinto,  comecei imediatamente a correr o barco de cima a baixo. E nada de encontrar o tal point. Já estava me sentido vítima de bullying quando, num acesso de Hercules Poirot e ouvindo o accent característico de brasileiro falando inglês,  juntei diversas pistas deixadas ao acaso e descobri o mistério. Acontece que tem um pub irlandês no oitavo andar do navio  que abre 24 horas. Só tem trash food (Chicken wings, burger and fries, etc.). Um verdadeiro horror! E justamente por isso é meu favorito… Gosto muito do local e o frequento sempre que Dora está distraída e deixa…Tem até fish and chips e seu hamburger é genial. Mas, como todo irlandes que se preze, seu nome é um pouco complicado para os padrões linguísticos do Brasil e leva logo dois apóstrofes.   “O’Sheehan’s Bar & Grill. A turma brazuca ouviu os gringos dizendo o nome do  lugar e entendeu Ocean. Ocean? Sim, oceano… Claro, genial, que nome melhor pra um bar em pleno mar azul? Dai pro austero pub ser batizado de Restaurante Oceano foi um pulo. Pior é que o distinto pub agora deu pra ser chamado de Boteco Oceano. Só falta ser chamado de Botequim Pé pra Fora…Bom, falemos de coisas nobres. Ontem dei mais um passo em minha caminhada rumo ao pedestal dos bravos e corajosos. Pois no décimo oitavo andar do navio tem uma trilha de cordas – que os brazucas chamam de arborísmo apesar de não ter nem um pé de alface por aqui -, simplesmente radical. Fica debruçada sobre o oceano e a sensação de andar lá em cima olhando as ondas violentas que o navio faz enquanto balança é realmente de dar medo. Dos poucos que ousam enfrentar o negócio, mais de metade refuga quando chega ao primeiro obstáculo, que é uma viga super estreita, como essas de construção, que segue ao ar livre sobre o mar. Teoricamente, se você cair, cai do 21 andar no mar. Dora, como sempre, foi na frente e ficou dançando naquela geringonça. Eu vesti todo o equipamento, subi, olhei a coisa lá de cima, senti vertigem, amarelei e ia desistindo quando vi uma tremenda gata atrás de mim esperando a vez e sorrindo debochada como quem diz: “Como é, vai ou não vai?”. E Dora, encarapitada em outro balaustre, dando risada de minha covardia. Aquilo foi demais pra mim. Afinal sou um homem ou sou um rato? Quando já ia soltando um guinchado fazendo cara de Mickey Mouse, muito apropriado para quem está indo pra Miami, pois não é que baixou de repente em mim o espírito do Homem Aranha ou do Batman, não sei bem, e me deu uma coragem que só sinto em frente a uma pizza? Comecei a caminhar por aquelas cordas como quem passeia no Shopping levando o  Lulu pela coleira. Dai pra fazer pose largando as duas mãos foi um pulo. Só me faltou dar uns passos de balé, mas achei que aquilo iria danificar minha imagem de símbolo sexual conquistada a tanto custo. Achei melhor não. O gran finale da Rope Course, que é o nome do desafio, é uma prancha, como a dos piratas, que sai do navio e se debruça sobre o oceano sem nada que a apoie por baixo. Ali o vento é muito forte e quase sempre o acesso está fechado. Muitos marmanjos que fazem o circuito desistem no final. Na ponta da prncha tem uma corda, que é pros machos que lá conseguem chegar dar um puxão que ativa diversas câmeras. E eu cheguei. Parecia o capitão Jack Sparrow (Johnny Deep em Piratas do Caribe), só que sem o rímel nos olhos, lógico. E ficou tudo registrado pra provar para a posteridade. Vejam as fotos. Repeti a dose no dia seguinte e percebi que o medo, uma vez vencido, não volta. É nóis. Agora um segredinho. Estive por diversos dias observando o local e notei que as mulheres – sim, sempre as benditas mulheres –  se mostram mais corajosas do que os homens. Ô raça! Somente hoje, após sete dias ininterruptdas de viagem, conseguimos sair desse País chamado Brasil. A gente larga o torrão, mas ele não larga a gente. Acho que estamos ali pelo Suriname, que não deixa de ser uma espécie de Brasil, só que pior. Ou melhor, sei lá.  Amanhã conto outras histórias, inclusive duas de suspense envolvendo uma menina de dez anos e um casal suspeitíssimo. E conto também como estamos ficando famosos em meio a tantas celebridades, pra não dizer do bacon que virou alga… Inté.   

 

 

Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 1

01 – Das razões que levam a matar

 

 

 

 

Não consigo vislumbrar um  motivo que seja para aceitar passivamente ser alvo de uma injúria ou provocação, sem revidar à altura. Se algo me incomoda, devo tirá-lo do caminho. Não posso simplesmente dispor de meu livre arbítrio e relevar, pois demonstraria fragilidade de caráter. A lógica que utilizo é cristalina: considero injúria ou ofensa, crimes. E crime merece castigo. E castigos têm gradação. Fica ao alvedrio de cada um impor a pena mais adequada à ofensa recebida. Eu penalizo a ofensa com a morte.

Em vista de tão sólidos argumentos, sendo vítima constante de ataques brutais, foi com naturalidade que percebi não me restar alternativa a não ser me defender, aniquilando aqueles que me atormentam o corpo e a alma. Assustado? Assassinatos em série podem chocar alguns, pois não existe ainda uma explicação científica para os rumos aleatórios que a mente humana pode tomar. Psicopatia, Paranóia, Bi-polaridade ou Esquizofrenia são apenas termos técnicos que designam algum desvio de comportamento, seja ele importante ou não. Mas esses jargões médicos ainda não explicam a instigante carga de adrenalina que percorre nosso corpo ao adentrar o universo proibido do crime. E essa é uma estrada sem volta, pois poucos de nós conseguem – ou querem – deixar seu glamour. A tendência é cada vez mais irmos perdendo a consciência, distanciando-nos dos valores – certos ou errados – aceitos pela sociedade, e incrementando dia a dia o refino e a ousadia com que praticamos nossas intervenções, que é como gosto de chamar a arte de proceder a sutis alterações no destino.

E assim, me empenhei com afinco e rigor cirúrgico na tarefa de matar. A primeira incursão foi a mais difícil, não por qualquer bloqueio ou ataque de consciência, e sim pela ausência de técnica adequada. Mas, ao olhar a primeira vítima caída à minha frente, e perceber que nem o mais leve resquício de arrependimento ousou sequer arranhar minha consciência, tive a certeza de que escolhera o caminho certo.  “Menos mal”, pensei, enquanto jogava a arma num canto. A partir da segunda execução – e a cada nova morte – a excitação foi num crescendo, trazendo consigo o indescritível arrepio que acompanha o artista nos instantes que antecedem sua subida ao palco – e que não o abandona ao longo dos anos. Em muitos momentos cheguei a sentir-me um Houdini, consciente do fascínio exercido sobre a platéia extasiada. Entendi, então, porque o serial killer é sistemático, bem como a razão pela qual tantos escolhem suas vítimas ao acaso. Como sou um incorrigível perfeccionista, procurei com o tempo aperfeiçoar meus métodos, me cercando de um rigor quase científico para obter melhores resultados, pois achava inadmissível que, contrariando meu criterioso processo de aniquilamento – o que seria de mim sem a semântica -, algumas vitimas conseguissem escapar com vida. Mas, como não escolho aleatoriamente, e nem tenho predileção por algum tipo físico em especial, nada garante que uma vítima – que porventura tenha conseguido escapar -, não possa ser abatida em outra ocasião. Aprendi desde cedo que não se briga com o destino. E, modéstia à parte, não sou como a maioria dos meus pares, que mantém um padrão facilmente decifrável, atuando inocentemente dentro de intervalos regulares, perfis redundantes e regiões pré-estabelecidas.  Mato quem me incomoda, quando e onde quiser. Ponto. A mim tanto faz se o número de vítimas num dia for um, dois ou três. Mas gosto de deixar claro que não mato por prazer. Assim, se ninguém me incomodar, abster-me-ei de fazê-lo. Minha necessidade não é de ver sangue, e sim, de me livrar de quem me incomoda.  Por essa razão, acho que não posso ser considerado um psicopata. Simplesmente gosto de permanecer tranquilo no meu canto. Não mexam comigo e não mexerei com vocês. Entendido?  Pois bem: após uma série de incursões, nas quais diria que meu aproveitamento andou em torno de oitenta por cento – aproximadamente, uma vez que me é impossível precisar o número de vítimas -, senti que deveria me aprimorar.

E foi no intuito de melhorar meu desempenho que procurei um novo tipo de arma, com mais recursos tecnológicos embarcados e, por isso mesmo, mais eficiente. Cansei da força bruta. De matar por impacto ou por asfixia. O aprimoramento técnico é essencial em qualquer área na qual se deseje atingir a perfeição. E assim, cheguei ao ápice, ao “state of the art”, simplesmente ao mais alto grau de desenvolvimento em termos de eliminação em massa que o dinheiro pode comprar. A bem da verdade é preciso ressaltar que sempre tive verdadeira obsessão pelas câmaras da morte, em especial pela cadeira elétrica. Morre-se tranquilamente e o estertor não demora mais que dois segundos. Se pudessem optar, minhas vítimas com certeza ficariam satisfeitas com o novo equipamento – e com o maior prazer eu traria aqui seus depoimentos, se elas pudessem falar… Afinal, estar neste ramo não significa abdicar de meu senso de humor, providencialmente negro.

E foi assim, imbuído desse espírito inovador, que pesquisei e comprei a mais nova e revolucionária arma que uma pessoa no meu ramo pode almejar: uma raquete elétrica de matar mosca. Mas não pensem que é uma dessas raquetinhas amadoras, movidas a pilha. É um equipamento profissional, com bateria bi-volt recarregável, dupla face, área eletrocutável expandida, podendo atingir – dependendo da técnica do matador -, até cinco ou seis insetos com uma única raquetada.

Só tem um problema: o barulho que ela emite ao tostar o bichinho. É por demais assustador. Tentei duas vezes e, em ambas, quase morri de susto quando a pobre mosca, ao entrar em contato com o campo energizado de minha arma fez bzzzzz.

Caiu o pernilongo para um lado e eu pro outro! É simplesmente aterrorizante, tomara que me acostume… Pernilongo, muriçoca, mosquito, mosca, pólvora, mutuca, varejeira, borrachudo. O que não falta é variedade de nome e espécie desses incômodos e folgados seres que vivem em nossas casas, às nossas custas, entram e saem na hora que bem entendem, não nos ouvem e não nos  respeitam. Não, não me refiro a seus filhos, continuo falando dos pernilongos. Mas, apesar dos pesares, os terríveis e sonâmbulos insetos ainda conseguem ser mais chatos que nossas crias, a não ser em sábados à noite ou véspera de feriado, ocasião em que os moleques são insuperáveis. E ainda por cima trazem doenças transmissíveis para nossos lares. Os insetos, claro. Foi, pois, pensando no meu bem estar e no bem estar de minha digníssima e inseparável família que me tornei um serial killer. Ou quase.

 

 

 

Encurtando o pavio

 

Se você é um daqueles indivíduos – de qualquer sexo -,  que está permanentemente  de bem com a vida, tem sempre uma palavra de alento para o próximo, acorda de bom humor todo santo dia e responde com um aceno amigável quando é fechado no trânsito, este é o livro que promete sua cura completa.

Sim, caro paciente, pois ao comportar-se com a calma de um guru indiano ou um sábio chinês, daqueles que aparentam ter mais de 250 anos, mas tem apenas quarenta e cinco, e que se alimentam com duas pétalas de alcachofra uma vez por semana, sua venerável pessoa demonstra não estar no pleno gozo de suas faculdades e provavelmente sofre de algum distúrbio, quem sabe uma doença física ou mental, extremamente irritante, que descobriremos e curaremos no decorrer desta obra.

Ao completar a primeira metade do livro sua intolerância já será capaz de mandar a atendente de telemarketing – que ligou às oito horas da manhã para estar lhe empurrando uma linha telefônica grátis, mesmo sabendo que você está querendo jogar a linha atual no lixo -, oferecer essa porcaria para a sua – dela – santa progenitora.

Mas, se pensa que seu tratamento será fácil, é melhor fechar este livro agora, a não ser que não tenha ainda passado pelo caixa. A imersão profunda no conteúdo destas linhas terá o efeito libertador de uma temporada em clínica de desintoxicação no alto de um monte Indiano, com a vantagem de não ter muro. E seu paladar ainda pode, entre um capítulo e outro, deliciar-se com uma dobradinha, com a consciência tranquila de quem degustou um pé de alface. Ao virar a última página seu corpo estará apto a deixar esse mundo cor-de-rosa em que pensa que vive para imergir de vez nessa coisa gosmenta, cinza e mal-cheirosa que chamamos de vida social.

Se ainda lhe restam coragem e preparação psicológica suficientes para enfrentar o desafio, siga em frente e descubra como encurtar ainda mais seu pequeno pavio, no bom sentido, e mantê-lo sempre aceso, tornando-se um destemido guerreiro, pronto para o combate que se apresenta a cada esquina da vida. Como possivelmente diria algum célebre filósofo chinês, “Dada a guerra só nos resta usufruí-la, distribuindo bordoadas a quem de direito”.

 

 

Meia volta ao mundo sem avião – Capítulo 1

Meia volta ao mundo sem avião

 

 

 

Prefácio

 

 

E de repente deu aquela vontade de viajar. Mas não um passeio qualquer. A vontade era fazer uma viagem pra ninguém botar defeito,  longa, fantástica, arrepiante e desafiadora, por lugares ainda não vistos, ao menos por nós. Transformar um sonho que habita a cabeça da maioria das pessoas em realidade: uma viagem ao redor do mundo. Esse sonho nasceu e foi tomando corpo em nossas conversas ao longo das caminhadas diárias que fazemos pela orla da praia de Santos, cidade maravilhosa que escolhemos para viver. Só que por aqui a aposentadoria ainda não chegou. Trabalhamos, e muito, ainda que não tenhamos horário nem local definido, visto que a empresa é nossa e atua basicamente na Internet. Mesmo não sendo uma grande empresa, sempre sobra um dinheirinho para essas aventuras. Mas, e sempre tem um mas, havia um obstáculo quase intransponível a vencer antes de se pensar em sair do País. Acontece que não ando de avião em hipótese alguma. Já andei diversas vezes, sendo que na última viagem, ocasião em que embarquei em Salvador com destino a São Paulo, fingindo que ia ao banheiro “fugi” do avião quando a aeronave parou no Rio e fiz o resto do trajeto de trem. Os amigos que comigo viajavam estão me esperando voltar do banheiro até agora… Nunca mais pus os pés num avião. Aeroporto já me dá arrepios, mesmo que seja para acompanhar alguém. Eu sei que é um dos mais seguros meios de transporte. Mas, quando vejo aqueles objetos grandalhões correndo pela pista, até o último segundo continuo acreditando que, por mais que corram, assim como um urso panda jamais serão capazes de alçar voo. Quando decolam, principalmente quando levam algum parente meu, transpiro e rezo sem parar até vê-los desaparecer no horizonte. Ai acalmo um pouco. Como um indivíduo com tal síndrome poderia viajar de avião achando que iria se divertir? Não tem jeito. Dessa forma o sonho da viagem parece que não ia dar certo mesmo. Mas, pera lá!  Não teria jeito se não houvesse outros fantásticos meios de transporte que amo, chamados navio, trem e automóvel. A partir dessa ideia é que nosso sonho começou a tomar forma. Tudo começou com a notícia de que por ocasião da Copa do Mundo de Futebol no Brasil um navio da MSC Cruises viria dos EUA para cá trazendo torcedores mexicanos e, na volta, em julho de 2014, faria um cruzeiro pelo Caribe terminando nos EUA, mais precisamente em Miami. Normalmente as companhias de navegação não fazem a rota Brasil/EUA, motivo pelo qual eu não conhecia a América do Norte. Dessa forma, pensei: “Ok, nosso transporte até Miami estava teoricamente garantido, Mas, e pra voltar?” Ai a viagem começou a tomar forma. Não sei se todos conhecem este fato, mas algumas grandes companhias de navegação que fazem cruzeiros de verão na Europa, mandam seus navios para a América do Sul para aproveitar a temporada de verão daqui, só voltando para a Europa em meados de abril. Essas viagens entre a Europa e América, chamadas de Travessias Oceânicas ou Grandes Viagens, são maravilhosas. Duram aproximadamente vinte dias e vão parando em portos pré-determinados, normalmente cidades dedicadas ao turismo. A travessia em si demora apenas cinco dias. Já fizemos outras viagens para a Europa utilizando esse meio e adoramos. Bom, voltando a  nosso  plano, descobri que o navio Queen Mary II, pertencente a uma das mais antigas e luxuosas companhias de transporte marítimo, faz travessias regulares entre Estados Unidos (New York) e Inglaterra (Southampton).

Pronto, estava formatado, ainda que rusticamente, o roteiro de nossa viagem, chamada meia volta ao mundo sem avião, que incluiu:

 

1)    Navio do Brasil para EUA (Miami), visitando o nordeste do Brasil e diversas ilhas do Caribe, incluindo Granada, Aruba, Curaçao, Gran Cayman, Jamaica e Barbados.

2)    Uma road-trip (viagem de carro) sem destino, atravessando os EUA de sul a norte seguindo a costa leste, de Miami a New York, passando por vários estados e cidades americanas, para conhecer de perto sua cultura diversificada.

3)    Um mês em New York, Boston, New Jersey e redondezas.

4)    Travessia do Atlântico em direção Leste, pelo  navio Queen Mary II, dos EUA(New York) ao Canadá(Halifax) com destino à Inglaterra(Southampton)

5)    Viagem pela Inglaterra, Londres e arredores, culminando com travessia  Londres/Paris sob o Canal da Mancha nos trens da Eurostar.

6)    Viagem  pela Europa à bordo de trens, carros e navios de cruzeiro, incluindo França. Alemanha, Suiça, Itália, Espanha, Grécia, Luxemburgo, Suécia, Finlândia, Noruega, Portugal, Lichstein, Áustria, Eslováquia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Tirol

7)    Viagem de trem e navio à Rússia

8)    Volta ao Brasil em dezembro a partir da Itália(Genova) pelo navio MSC Poesia, visitando Itália, Espanha, Portugal, Ilha da Madeira(Funchal) passando ao largo do continente africano, Arquipélago de Santa Marta, Fernando de Noronha, Recife, Maceió, Salvador, Rio de Janeiro e, finalmente Santos.

 

Resumindo: Esta viagem seria (como foi) uma meia volta ao mundo em cento e oitenta dias, sem avião. Pelo tanto que nos divertimos e pelas aventuras que passamos, acho até que daria um livro…

 

 

Do Planejamento.

 

Para você, que gosta das coisas muito bem planejadas, este capítulo poderá parecer meio frustrante. Sinto informa-lo que não planejamos coisa alguma. Foi tudo no improviso, de supetão, como nos veleiros, aproveitando o vento que soprava de popa.

Assim, de planejado mesmo só definimos a data de partida, em julho de 2014, pelo único meio disponível, o incrível navio MSC Divina, um dos maiores do mundo. De resto, sabíamos que deveríamos pegar um navio da MSC em Genova, lá pro fim do ano, que nos trouxesse de volta pra casa. Mais nada. O resto, hotéis, passeios e destinos, decidíamos na véspera, à noite, quando já estávamos satisfeitos com uma cidade, olhando num  mapa do Google e reservando o hotel por um site fantástico de reservas, o Booking.com que, além de tudo, tem avaliações bastante confiáveis.

Apesar das estripulias, aventuras e micos de diversos tipos que, espero, o divertirão a partir de agora, nossa viagem foi um sucesso absoluto, sem nem ao menos uma dor de barriga para atrapalhar a diversão. Faço votos de que esta leitura o incentive a se mexer e partir em busca de novas aventuras, que certamente abrirão mais sua cabeça e o deixarão mais culto, feliz, saudável e confiante.

 

 

 

 

 

 

 

Capítulo I

 

 

A viagem

 

 

Estava uma manhã radiante, com o sol a brilhar em todo o seu esplendor quando fomos, devidamente escoltados pelo filhote e por Luna, nossa Yorkshire, para o Porto de Santos. A visão majestosa do magnífico transatlântico MSC Divine nos deixou boquiabertos e ansiosos por embarcar. Embora acostumados a viajar em grandes e novos navios, a presença do Divine, um dos maiores e mais modernos navios  do mundo, pela primeira vez na América do Sul, nos deixou sem fôlego. E a impressão inicial só se confirmou à bordo. Após as calorosas despedidas, subimos à bordo, sendo recepcionados por uma tripulação bastante cordial.

É incrível a quantidade de atividades que se pode desenvolver em um desses cruzeiros. Você passa dezenove dias e não chega a conhecer todo o navio. É como se estivesse numa pequena cidade, com seus shopping centers, cinemas, restaurantes, sorveterias, igrejas, cassinos e clubes. Com a vantagem de que todo o mundo se conhece. Sim, pois é impossível viajar num cruzeiro desses sem fazer novas e duradouras amizades,  com gente viajada e interessante. Temos uma infinidade de amigos amealhados em nossos cruzeiros e estamos sempre a nos encontrar, seja em terra, seja em mar. Porque, uma vez marinheiro,  sempre marinheiro. A coisa vicia…

 

Salvador, Bahia, Brasil

 

De Santos seguimos viagem rumo norte/nordeste em direção à Salvador. Normalmente os cruzeiros se dividem em duas etapas: navegação e parada em algum porto. Quando se está navegando, aproveitamos o dia em diferentes atividades, piscina, academia, tomando sol, fazendo caminhadas ou praticando algum esporte, na sauna. Ou então em alguns dos excelentes bares e restaurantes à bordo. Quando o navio para em algum porto, é hora de conhecer novas cidades. Os cruzeiros oferecem opções de passeios programados, mas você também pode sair por conta própria. Em Salvador, onde já moramos, foi hora de matar saudades do Pelourinho e suas casas coloridas, da Estrada do Coco e suas praias maravilhosas, de Itapuã, do Elevador Lacerda que nos leva da cidade baixa à cidade alta, do Mercado Modelo e suas infinitas e irresistíveis quinquilharias, e da praia da Barra e do Farol, onde comemos um excelente peixe Vermelho acompanhado de uma farofa ao azeite de dendê. À noitinha embarcamos para alguns dias de navegação com destino ao Mar do Caribe.

 

Bridgetown, Ilha de Barbados, Mar do Caribe

Depois de cinco dias muito divertidos de navegação, chegamos em Barbados, magnífica ilha, de colonização Britânica, onde as pessoas se vestem impecavelmente, as mulheres, negras belíssimas e muito elegantes, sempre de vestidos ou saias longas portando sombrinhas. A visão é incrível e a educação do povo nos faz lembrar realmente da fleuma britânica. A comprovar a beleza das locais,  a exuberante Rihanna, uma das cantoras de maior sucesso da atualidade, nasceu em Barbados.

 O inglês é a língua corrente no País. Aqui devo fazer um parênteses para informa-los de algo a meu respeito. Como vocês devem ter percebido, sou um bocado medroso, uma vez que não subo em avião. Mas não é só avião. Sempre tive medo de altura, só pego elevadores até o décimo quinto andar (pode?) e não frequento varandas nem olho pela janela de apartamentos altos. Também tenho claustrofobia, detesto ambientes fechados. Enfim, sou um estudo psiquiátrico completo, a felicidade de qualquer analista, se algum dia tivesse ido a um… Estou contando isto para vocês apreciarem melhor tudo o que nos aconteceu na viagem, e as frias em que me meti…

 

 

 

Em Barbados pegamos um ônibus panorâmico que nos levou a uma marina. E o que havia lá de interessante? Simplesmente um passeio de submarino. Mas não pense que é um desses barcos turísticos com fundo de vidro. Não, meu amigo. É um submarino de verdade. Imagine agora eu, que não gosto nem de elevador, dentro de um casulo desses. Impossível, né?

Acontece que comprei duas passagens, me enchi de coragem e disse pra Dora: “Seja o que Deus quiser, vamos nessa…”

E lá fomos nós. O submarino não fica na costa. Você tem de pegar uma lancha que te leva até alto mar, local onde o submersível está. É a visão mais impressionante do mundo, parece realmente um daqueles submarinos de guerra. Então entramos, entramos não, descemos, pois apenas uma pequena parte do convés fica à vista. Você desce por uma estreita escada, passa por duas portinholas e chega lá embaixo, um ambiente escuro, com claraboias gigantescas mostrando o fundo do mar. Só a sensação de estar abaixo do nível da água já é desconcertante. Associe-se a isso o barulho enorme dos motores e toda a complexa aparelhagem do piloto, maior do que a de um Boeing  que ocupa toda a frente e mais o teto do submarino. E de repente as comportas se fecham, o zumbido aumenta e percebemos que estamos submersos. Apreensivos, ouvimos a voz do comandante dizer que vamos começar a descer. Fico de olho num medidor de profundidade, que marca em pés o quanto nos arriscaremos dentro do oceano. Alguém solta as amarras e o bicho começa a descer. A sensação é indescritível. Trinta pés, trinta e cinco, quarenta. Quando o submarino se inclina para a frente, a sensação é de que jamais conseguiremos voltar pra superfície. Mas encarei corajosamente, principalmente pela beleza da fauna marinha daquele exótico e inconfundível mar do Caribe. E a cada vez que me acalmava os motores rugiam e o altímetro anunciava uma nova profundidade. Sessenta pés, sessenta e cinco, setenta. E a profusão de peixes e estranhas criaturas marinhas ia aumentando à medida em que descíamos, provocando sensações diversas, entre o êxtase e a loucura. Quando chegamos a cento e quarenta e cinco pés, pude ver o fundo do mar, muito branco com sua areia lisa e então me acalmei. Chegamos assim aos escombros de um navio pirata naufragado. Incrível a sensação de estar mergulhando e podendo observar in loco um naufrágio. Me senti o próprio Jacques Costeau.  Quando começamos a subir eu já me sentia como um perfeito marinheiro de submarino, pronto a enfrentar as mais duras batalhas. Foi uma sensação muito boa, de vencer o pânico. Prometi a mim mesmo que durante essa viagem quebraria diversos tabus e enfrentaria perigos mil. Vocês verão que eu não estava mentindo. Dora se sentiu orgulhosa ao lado de alguém tão corajoso…

 

 

Ainda em Bridgetown, passeamos de ônibus por diversas praias, depois demos alguma voltas pela simpática cidade até encontrar um homem com um carrinho vendendo uma frutinha até então para nós desconhecida. Perguntamos o que era e ele nos deu algumas para experimentar. Quando estávamos degustando a segunda ou terceira frutinha e o homem não parava de rir, foi que nos caiu a ficha: o simpático alienígena nos explicou que as frutas eram alucinógenas. Cuspi rapidamente e continuamos nosso passeio, enquanto Dora via borboletas gigantes, gnomos e cogumelos falantes… Eu vi apenas alguns dinossauros…

Volta às Américas – Capítulo 1

Volta às Américas

 

Capítulo 1



SOS


E eis que estamos a bordo do magnífico Norwegian Getaway, que normalmente fica ancorado em Miami, mas excepcionalmente foi até o Rio para dar suporte às Olimpíadas. Sorte nossa. O sistema da Norwegian, ao contrário das companhias italianas, é o “Free Style”, ou estilo livre. Nesses navios não se tem horário para nada nem lugares reservados ou obrigação com roupas sociais. Cada um faz o que bem entende, criando um clima informal bastante interessante. De nossa parte, adoramos o sistema, que nos deixa mais livres em relação a horários e restaurantes. Nosso destino é Miami. E notícias preocupantes aparecem nos noticiários, dando conta de um tal furacão cujo nome me escapa. Ainda bem…

Estamos totalmente isolados em alto mar, à mercê do mau tempo e de ondas gigantescas, sem comunicação alguma com o resto do mundo. Sem rádio, TV, Intenet, jornal, noticiários. Nada. Olhando pela janela da varanda vejo nuvens negras em forma de cornucópia anunciando um tornado vindo do Caribe, mais especificamente do Triângulo das Bermudas, que se aproxima em velocidade espantosa do navio, que como uma casca de nós balança perigosamente ao sabor da correnteza, aparentemente sem qualquer controle por parte da tripulação. E em meio à angústia que me toma o peito e ao medo que se instalou nas feições de assustados passageiros, me pergunto: se não tenho comunicação nenhuma, como você está lendo este comentário no Facebook? É claro que tudo isso só pode ser invencionice desse Barão de Muchausen das Arábias que vos atormenta com seus mal escritos, só para apimentar nossas histórias. Èta sujeitinho mentiroso, devia ser político… Na verdade, o mar está calmo como uma piscina, com seu azul profundo nos transmitindo uma paz incomensurável. E estou feliz, pois comprei um pacote de Internet que funciona milagrosamente bem, rápido e seguro. E estamos nos divertindo muito. Hoje conhecemos uma família de Sorocaba, muito simpática. Enquanto eu e Geraldo, o chefe da família na casa de sua frágil esposa, conversávamos a respeito de como os homens são corajosos, Dora e Solange escalavam uma incrível trilha de cordas instalada no decimo oitavo andar do navio, onde o ápice da aventura é se equilibrar em uma prancha que se lança sobre o mar, como a dos navios piratas. Nós, os machos corajosos, ficamos cá de baixo só orientando as damas, preparados para ampará-las em caso de queda, e prometendo que amanhã, sem falta e se não chover, escalaremos aquele brinquedinho de crianças de olhos vendados. Aliás, não entendi o porquê daquele brinquedinho ser proibido para menores — coisinha idiota e água com açúcar… Sobre o navio, é gigantesco, o maior que já singrou mares brasileiros, e totalmente diferente dos outros em que viajamos. Este funciona no estilo americano. Não tem horário pra nada, nem aquelas frescuras de assento reservado para o jantar. É o que eu procurava, uma zona total.. Come-se

 

em qualquer restaurante, no horário em que se deseja. Viva a bagunça! Mas, como nem tudo é perfeito, como sempre estou sofrendo nas mãos de chefs asiáticos, daqueles que acham que colocando mel, iogurte e açúcar no frango vão conquistar o paladar dos brasileiros e serão considerados dignos de três estrelas no guia Michellin… Já nossos honrosos compatriotas estão sofrendo aqui, pois ninguém na tripulação fala qualquer coisa que não seja inglês, indiano ou filipino. Assim, é muito engraçado ver madames falando com os gringos em português, lentamente e em altos brados, como se isso fizesse a garçonete do Alabama entender a última flor do Lácio. Após quatro dias comendo hamburger no almoço e hot dog no jantar conheci um casal de médicos que me aconselhou a mudar o cardápio. Assim, a partir de amanhã mudarei radicalmente, passando a comer hamburger à noite, deixando os hot dogs para o almoço… Logicamente sem abdicar das indefectíveis French Fries. Ignorância alheia eu suporto bem. Duro é conviver com ignorância própria… Aposto que qualquer pessoa neste universo que tenha frequentado ao menos UMA aula de inglês sabe o significado de “complimentary”. Pois eu sabia e me esqueci, pela falta de uso. E como sempre, me achando sabido, traduzi para o mais provável – complementar. Ai de mim que não caibo em tanta burrice. É que no jornal diário alguns pubs e restaurantes do navio vem classificados como complimentary. E eu logo achei que é porque serviam apenas lanches, digamos, um complemento alimentar. Hahahaha. Sei que todos vocês estão caçoando de mim, mas para aquelas quatro pessoas que também não sabem, “devo de dizer” que “complimentary” significa cortesia. Eles usam o termo para separar os restaurantes pagos. Eu ainda chego lá. Mas, pensando melhor, acho que vou dizer pra esses americanos que cortesia é o cacete. Eu paguei, e bem caro, pra comer nesta birosca. Eu não quero cortesia nenhuma, exijo meus direitos. Steward, please, how can I get to the Procon Stateroom?