Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 2

 

Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 2

 

 

Rotina

 

 

 

 

Eram quase dezoito e trinta da tarde de um dia de semana qualquer, quando me lembrei que já passava da hora de deixar o carro na Concessionária para revisão. Excepcionalmente nesse dia estava sem meu motorista, razão pela qual, embora contrariado e fugindo totalmente a meus princípios, fui sozinho.

Quando deixei a Concessionária, já havia escurecido. Procurei um táxi e não vi nenhum. Descobri então que estavam em greve. Comecei a caminhar sem rumo, pois há mais de trinta anos não tomo um ônibus, acho até que jamais andei numa dessas geringonças coletivas. Moro numa cidade litorânea, situada numa ilha – refúgio de abastados -, na qual só se chega por helicóptero, barco ou estrada. Após quarenta minutos esperando por uma condução que não vinha, num ponto cheio de gente esquisita, – desconfio até que são trabalhadores -, me informaram que ônibus não atravessam balsas, ou seja, não tinha maneira de chegar em casa. A bem da verdade, ônibus em nosso paraíso seria recebido com a mesma desconfiança que se dispensaria a um OVNI. Como a balsa ficava longe de onde eu estava, fui informado que a única solução possível no momento era pegar um serviço de barcas que atravessa o braço de mar que me separava de casa, e que eu jamais sonhara que existisse.

– Mas aonde pego esse barco?, resmunguei.

– O terminal fica a um quilômetro e meio daqui, seguindo por essa rua que beira o canal. Mas cuidado que esse horário é meio perigoso, senhor – me assustou um garoto que passava.

“Pronto! Lá se vão meus anéis, carteira Pierre Cardin, Iphone, notebook, gravata Hermés, sapato de crocodilo, enfim, todos os equipamentos básicos e indispensáveis a uma pessoa na minha posição”, pensei com meus botões de madrepérola, enquanto ainda estavam ali, ornamentando a camisa de seda javanesa, já meio úmida de suor.

Ainda tentei convencer alguém no ponto a me acompanhar, mas como começaram a me olhar de modo esquisito, desisti.

Olhei à minha volta, respirei fundo e… senti o cheiro. Era como se todos os maus odores do mundo tivessem convergido e concentrado seus esforços em impregnar minhas narinas. Aquele odor insano provavelmente vinha das águas fétidas do canal que eu teria de percorrer e estava ali todo o tempo. Eu é que não sabia. Cobri o nariz com meu lenço Yves Saint Laurent, que seria atirado ao lixo assim que encontrasse novamente a civilização, e comecei a caminhar.

Percebi então que uma multidão de gente mal arrumada, mal ajambrada, mal remunerada, caminhava apressadamente ao meu lado, indo e vindo. Perguntei a um passante o que estava acontecendo. Ele, surpreso como se estivesse vendo um extraterrestre, mansamente retrucou:

– Nada, senhor. É o povo indo e voltando, para o trabalho, para a escola, para casa.

Quase tive um ataque:

– Quer dizer que isso é normal? Essa aglomeração? Esse barulho? Esse cheiro?

O rapaz não me ouviu. Já estava longe, em seus passos apressados, talvez indo vigiar uma fábrica. Quem sabe até a minha fábrica! Como posso depender dessas pessoas?

A paisagem ao meu redor consistia da rua que se estendia no horizonte a perder de vista, calçada por paralelepípedos mal juntados que me faziam tropeçar a cada dois metros. Ao centro, como um Sancho Pança fielmente a acompanhá-la, seguia aquele fétido canal, represando entre suas lodosas paredes de concreto os milhões de litros de água barrenta e salobra, que mudavam de rumo ao sabor das marés. A margeá-la, uma série interminável de casas e barracões antigos, que serviam de abrigo para hospedarias, pensões e pardieiros diversos, além de uma infinidade de botecos, botequins, trailers lanchonetes, carrinhos de hot-dog, barracas de pastel e centenas de camelôs vendendo produtos piratas.

“Aposto que tem gente pirateando os produtos que fabrico. Gente desonesta”, pensei em voz alta. Concordo que eu também sonego um pouquinho de impostos, não pago os royalties corretamente e emito algumas notas frias, mas ao menos gero empregos. Não posso ser chamado de produtor pirata, se bem que já respondo a uns quatro processos. “Mas pra isso é que serve um bom advogado, é ou não é?, meditei, assustado.

“Como pode um ser humano comer ou beber num lugar desses? Não é muito melhor entrar num restaurante francês com toalhas de linho e talheres de prata e ser servido à la carte, escolhendo um Steak au poivre? Sinceramente não entendo essa gente…”, meus pensamentos iam e vinham, impregnados de revolta.

“E esse cais que não chega nunca?”, grito. Estou cansado e, principalmente, faminto.

Depois de trinta minutos caminhando e tentando inutilmente acelerar o passo antes que escurecesse, já não olho as barracas com nojo, mas curiosidade.

“Não é possível que todos esses comerciantes sejam anti-higiênicos. Deve haver alguma dona de casa que se preocupe com a limpeza por aqui”, racionalizava enquanto caminhava devagar, quase parando, olhos pregados numa estufa com salgadinhos diversos. Posso quase jurar que vi uma coxinha de galinha sorrindo pra mim. Voltei pra conferir e, cabisbaixo, pedi sussurrando, meio que envergonhado:

– Por favor, me veja uma coxinha e um refrigerante.

– Só tem suco de caju e abacaxi – vociferou a atendente dando-me as costas.

Antes que me arrependesse a moça estava de volta portando um bolinho gorduroso, que me entregou envolto num guardanapo de papel encharcado, juntamente com um copo descartável contendo um líquido amarelo como hepatite, extraído de uma máquina giratória que parecia exercer um extraordinário poder de atração sobre moscas.

Tive vontade de jogar aquele lanche no meio do canal. Mas resisti. E então fechei os olhos e dei a primeira mordida.

“Devo estar sonhando”, suspirei. “Que néctar dos deuses. Que massa leve. Que tempero. Macia por dentro e crocante por fora. É a melhor coxinha que já comi na vida.”

“Deve ser a fome. Não vou dar o braço a torcer nem por um segundo”, enfezei meio sem jeito.

E foi assim que, mantendo minha postura, paguei a conta, – não sem antes comer um pastel de carne, sabe-se lá de que animal -, e fui embora.

Caminhei mais quarenta minutos e cheguei numa espécie de píer onde atracavam pequenos barcos a transbordar de gente. Aquilo parecia um formigueiro. Dei uma moeda ao piloto da catraia como se estivesse pagando o próprio Barqueiro das Almas e embarquei fazendo o sinal da cruz.

Era inacreditável. Naquele corredor estreito, onde um nadador teria dificuldade em dar braçadas sem tocar as bordas, barcos carregando multidões cruzavam-se às dezenas, enquanto seguiam pelo estreito canal por uns dois quilômetros até desembocar no mar. Em alguns trechos o canal era coberto e, conforme a maré enchia, tínhamos que nos curvar e abaixar a cabeça para não batê-la no teto de concreto. Lembrou-me Veneza. Mas só por um instante, pois Veneza é Veneza e não pode ser comparada a este bairro miserável, ainda por cima poluidor do exclusivo condomínio onde moro. 

Após intermináveis dez minutos – tomado de assalto por uma estranha mistura de horríveis sensações de náusea e pavor -, e durante os quais o pequeno barco lotado atravessou aos trancos e barrancos o canal de mar serpenteando por entre imensos navios cargueiros, finalmente chegamos à ilha onde moro. Mais uma caminhada e, quinze minutos depois, cheguei, são e salvo, à minha mansão.

Um de meus empregados veio atender à porta e, após ouvir com um sorriso nos lábios meu breve e assustado relato, observou com desdém:

 

– Mas doutor, essa é a rotina que cumpro todos os dias para chegar ao local de trabalho, em sua casa… Normal!

Como me tornei um Serial Killer – Capítulo 1

01 – Das razões que levam a matar

 

 

 

 

Não consigo vislumbrar um  motivo que seja para aceitar passivamente ser alvo de uma injúria ou provocação, sem revidar à altura. Se algo me incomoda, devo tirá-lo do caminho. Não posso simplesmente dispor de meu livre arbítrio e relevar, pois demonstraria fragilidade de caráter. A lógica que utilizo é cristalina: considero injúria ou ofensa, crimes. E crime merece castigo. E castigos têm gradação. Fica ao alvedrio de cada um impor a pena mais adequada à ofensa recebida. Eu penalizo a ofensa com a morte.

Em vista de tão sólidos argumentos, sendo vítima constante de ataques brutais, foi com naturalidade que percebi não me restar alternativa a não ser me defender, aniquilando aqueles que me atormentam o corpo e a alma. Assustado? Assassinatos em série podem chocar alguns, pois não existe ainda uma explicação científica para os rumos aleatórios que a mente humana pode tomar. Psicopatia, Paranóia, Bi-polaridade ou Esquizofrenia são apenas termos técnicos que designam algum desvio de comportamento, seja ele importante ou não. Mas esses jargões médicos ainda não explicam a instigante carga de adrenalina que percorre nosso corpo ao adentrar o universo proibido do crime. E essa é uma estrada sem volta, pois poucos de nós conseguem – ou querem – deixar seu glamour. A tendência é cada vez mais irmos perdendo a consciência, distanciando-nos dos valores – certos ou errados – aceitos pela sociedade, e incrementando dia a dia o refino e a ousadia com que praticamos nossas intervenções, que é como gosto de chamar a arte de proceder a sutis alterações no destino.

E assim, me empenhei com afinco e rigor cirúrgico na tarefa de matar. A primeira incursão foi a mais difícil, não por qualquer bloqueio ou ataque de consciência, e sim pela ausência de técnica adequada. Mas, ao olhar a primeira vítima caída à minha frente, e perceber que nem o mais leve resquício de arrependimento ousou sequer arranhar minha consciência, tive a certeza de que escolhera o caminho certo.  “Menos mal”, pensei, enquanto jogava a arma num canto. A partir da segunda execução – e a cada nova morte – a excitação foi num crescendo, trazendo consigo o indescritível arrepio que acompanha o artista nos instantes que antecedem sua subida ao palco – e que não o abandona ao longo dos anos. Em muitos momentos cheguei a sentir-me um Houdini, consciente do fascínio exercido sobre a platéia extasiada. Entendi, então, porque o serial killer é sistemático, bem como a razão pela qual tantos escolhem suas vítimas ao acaso. Como sou um incorrigível perfeccionista, procurei com o tempo aperfeiçoar meus métodos, me cercando de um rigor quase científico para obter melhores resultados, pois achava inadmissível que, contrariando meu criterioso processo de aniquilamento – o que seria de mim sem a semântica -, algumas vitimas conseguissem escapar com vida. Mas, como não escolho aleatoriamente, e nem tenho predileção por algum tipo físico em especial, nada garante que uma vítima – que porventura tenha conseguido escapar -, não possa ser abatida em outra ocasião. Aprendi desde cedo que não se briga com o destino. E, modéstia à parte, não sou como a maioria dos meus pares, que mantém um padrão facilmente decifrável, atuando inocentemente dentro de intervalos regulares, perfis redundantes e regiões pré-estabelecidas.  Mato quem me incomoda, quando e onde quiser. Ponto. A mim tanto faz se o número de vítimas num dia for um, dois ou três. Mas gosto de deixar claro que não mato por prazer. Assim, se ninguém me incomodar, abster-me-ei de fazê-lo. Minha necessidade não é de ver sangue, e sim, de me livrar de quem me incomoda.  Por essa razão, acho que não posso ser considerado um psicopata. Simplesmente gosto de permanecer tranquilo no meu canto. Não mexam comigo e não mexerei com vocês. Entendido?  Pois bem: após uma série de incursões, nas quais diria que meu aproveitamento andou em torno de oitenta por cento – aproximadamente, uma vez que me é impossível precisar o número de vítimas -, senti que deveria me aprimorar.

E foi no intuito de melhorar meu desempenho que procurei um novo tipo de arma, com mais recursos tecnológicos embarcados e, por isso mesmo, mais eficiente. Cansei da força bruta. De matar por impacto ou por asfixia. O aprimoramento técnico é essencial em qualquer área na qual se deseje atingir a perfeição. E assim, cheguei ao ápice, ao “state of the art”, simplesmente ao mais alto grau de desenvolvimento em termos de eliminação em massa que o dinheiro pode comprar. A bem da verdade é preciso ressaltar que sempre tive verdadeira obsessão pelas câmaras da morte, em especial pela cadeira elétrica. Morre-se tranquilamente e o estertor não demora mais que dois segundos. Se pudessem optar, minhas vítimas com certeza ficariam satisfeitas com o novo equipamento – e com o maior prazer eu traria aqui seus depoimentos, se elas pudessem falar… Afinal, estar neste ramo não significa abdicar de meu senso de humor, providencialmente negro.

E foi assim, imbuído desse espírito inovador, que pesquisei e comprei a mais nova e revolucionária arma que uma pessoa no meu ramo pode almejar: uma raquete elétrica de matar mosca. Mas não pensem que é uma dessas raquetinhas amadoras, movidas a pilha. É um equipamento profissional, com bateria bi-volt recarregável, dupla face, área eletrocutável expandida, podendo atingir – dependendo da técnica do matador -, até cinco ou seis insetos com uma única raquetada.

Só tem um problema: o barulho que ela emite ao tostar o bichinho. É por demais assustador. Tentei duas vezes e, em ambas, quase morri de susto quando a pobre mosca, ao entrar em contato com o campo energizado de minha arma fez bzzzzz.

Caiu o pernilongo para um lado e eu pro outro! É simplesmente aterrorizante, tomara que me acostume… Pernilongo, muriçoca, mosquito, mosca, pólvora, mutuca, varejeira, borrachudo. O que não falta é variedade de nome e espécie desses incômodos e folgados seres que vivem em nossas casas, às nossas custas, entram e saem na hora que bem entendem, não nos ouvem e não nos  respeitam. Não, não me refiro a seus filhos, continuo falando dos pernilongos. Mas, apesar dos pesares, os terríveis e sonâmbulos insetos ainda conseguem ser mais chatos que nossas crias, a não ser em sábados à noite ou véspera de feriado, ocasião em que os moleques são insuperáveis. E ainda por cima trazem doenças transmissíveis para nossos lares. Os insetos, claro. Foi, pois, pensando no meu bem estar e no bem estar de minha digníssima e inseparável família que me tornei um serial killer. Ou quase.

 

 

 

Encurtando o pavio

 

Se você é um daqueles indivíduos – de qualquer sexo -,  que está permanentemente  de bem com a vida, tem sempre uma palavra de alento para o próximo, acorda de bom humor todo santo dia e responde com um aceno amigável quando é fechado no trânsito, este é o livro que promete sua cura completa.

Sim, caro paciente, pois ao comportar-se com a calma de um guru indiano ou um sábio chinês, daqueles que aparentam ter mais de 250 anos, mas tem apenas quarenta e cinco, e que se alimentam com duas pétalas de alcachofra uma vez por semana, sua venerável pessoa demonstra não estar no pleno gozo de suas faculdades e provavelmente sofre de algum distúrbio, quem sabe uma doença física ou mental, extremamente irritante, que descobriremos e curaremos no decorrer desta obra.

Ao completar a primeira metade do livro sua intolerância já será capaz de mandar a atendente de telemarketing – que ligou às oito horas da manhã para estar lhe empurrando uma linha telefônica grátis, mesmo sabendo que você está querendo jogar a linha atual no lixo -, oferecer essa porcaria para a sua – dela – santa progenitora.

Mas, se pensa que seu tratamento será fácil, é melhor fechar este livro agora, a não ser que não tenha ainda passado pelo caixa. A imersão profunda no conteúdo destas linhas terá o efeito libertador de uma temporada em clínica de desintoxicação no alto de um monte Indiano, com a vantagem de não ter muro. E seu paladar ainda pode, entre um capítulo e outro, deliciar-se com uma dobradinha, com a consciência tranquila de quem degustou um pé de alface. Ao virar a última página seu corpo estará apto a deixar esse mundo cor-de-rosa em que pensa que vive para imergir de vez nessa coisa gosmenta, cinza e mal-cheirosa que chamamos de vida social.

Se ainda lhe restam coragem e preparação psicológica suficientes para enfrentar o desafio, siga em frente e descubra como encurtar ainda mais seu pequeno pavio, no bom sentido, e mantê-lo sempre aceso, tornando-se um destemido guerreiro, pronto para o combate que se apresenta a cada esquina da vida. Como possivelmente diria algum célebre filósofo chinês, “Dada a guerra só nos resta usufruí-la, distribuindo bordoadas a quem de direito”.