Tuareg – Capítulo 2

Tuareg – Capítulo 2

 

Os três mosqueteiros

 

 O velho carro, fazendo um barulho ensurdecedor vindo provavelmente de um escapamento furado, contornou a praça e desapareceu na noite.

 Para seus ocupantes habituais, três amigos inseparáveis, aquele também era um dia como qualquer outro, um simples rabisco a lápis no calendário torto da parede. E, como sempre, mais do que nunca, um dia dedicado à procura do desconhecido, a busca constante por emoções ainda não vividas, aquelas dos encontros casuais, que poderiam transformar em realidade suas torturantes e solitárias noites de ócio e  tédio. Mais uma jornada em busca dos insondáveis segredos que faziam do sexo um mistério, tão próximo e tão fugaz quanto a névoa que os envolvia: se a tomassem nas mãos nada teriam, a não ser o incontrolável e obsessivo desejo de ter alguém entre seus braços juvenis, nem que fosse por um segundo. Talvez mais para dar mostras de sua virilidade, para se afirmar definitivamente como homens perante seus pares e perante  si mesmos, do que pela impetuosidade de seus hormônios.

Pois, ainda que do alto de seus dezoito ou vinte anos se vangloriassem de suas inebriantes experiências e da grandiosidade de  suas empreitadas sexuais, a realidade é que eram três  neófitos na arte da sedução.

– Athos…

– Porthos…

– D’artagnan!

Arnold, o mais velho, 20 anos completos há menos de um mês, mantinha seus cabelos loiros, raros por aquelas bandas, com tamanho suficiente para levar à falência os barbeiros e à loucura os pais, respeitáveis e conservadores cidadãos de classe média. Madeixas, aliás, com tamanho inversamente proporcional a seu juízo. Arnold via-se como um Apolo, queria a todo custo ser modelo e, na condição de mais velho, liderava o grupo. Ao menos, era o que achava. E quando os três amigos invocavam o nome dos mosqueteiros, dando-se as mãos como num ritual secreto, Arnold era o que sempre se recusava a ser um humilde Aramis, dizendo alto e bom som o nome do quarto elemento da “tríade”, querendo se destacar como o galã, no que  era sempre contestado pelos outros.

– Mas você não se emenda mesmo, hein, Arnold?, reclamou Charles. – Você é simplesmente Aramis. Somos os três mosqueteiros, não quatro…

Charles, o segundo, e esse era seu apelido,  mal tinha completado 19 anos. Era o mais calmo e sério dos três, se é que alguém nessa idade pode ostentar tais comportamentos. Parecia mais velho do que sua certidão de nascimento registrava e invariavelmente era quem impedia que os amigos se metessem em encrencas com mais frequência. Tímido, por trás dos óculos de aros redondos de metal polido, olhos castanhos, astutos e inteligentes a tudo observavam calados, como a misteriosa coruja que habita o velho campinho de futebol atrás de igreja. Como calados, se olhares não falam? Pois falam, e como! Só que, sempre francos, ao contrário dos lábios não conseguem esconder a verdade. Por isso, para não revelar sua alma, seu olhar permanecia distante. Sua mente, sim, trabalhava, anotando  os movimentos, as intenções, as atitudes. Como um computador, tinha memória invejável e fazia cálculos rápidos, muito rápidos. Não cálculos matemáticos, que não eram sua especialidade, mas elucubrações mentais sobre as possibilidades de sucesso em suas empreitadas. Nem sempre acertava, mas quando isso acontecia, era bonito de se ver. De David, o terceiro e mais falante, não se pode fazer uma descrição precisa sem um lugar de destaque à sua voz, cantada e esganiçada. O mais novo dos amigos, dezessete para dezoito anos, falava como se estivesse numa feira livre anunciando legumes ou peixes. Sua pele esbranquiçada, deixando transparecer as veias em tons azulados, como se fossem se romper a um simples aperto de mão, denunciava o excesso de noitadas e a falta de sol. Inquieto, assustado e com rompantes de valentia, não se conformava em ser o menor da turma e fazia valer sua estridência para impor respeito. Quase nunca conseguia. Quase, como se verá. E era de David, o menor de idade, o carro da turma. Dele, não. De seus pais, feirantes bem sucedidos. E, cuja atividade explicaria a matraca na voz do filho, não fosse por um simples motivo: o garoto jamais frequentou uma feira para olhar ou comprar, quanto mais para vender qualquer produto. Ainda mais peixe! No máximo, matava a fome da madrugada num pastelzinho antes de voltar para casa, momento em que seus pais já deveriam estar montando sua barraca. “E não faziam mais que a obrigação”, debochava ele. 

Acotovelados dentro do velho fusca bege, entreolhavam-se as quatro garotas e os três rapazes. As garotas, preocupadas com seu próximo e desconhecido destino. Os rapazes, mais aflitos do que a normal angustia pela falta de dinheiro e gasolina,  não escondiam a ansiedade em encontrar um lugar ermo,  sossegado e, se possível, seguro. O objetivo, juravam de pés juntos, era apenas se conhecer melhor. Não mais que isso, uns abraços, uns beijinhos. E só. Isso é o que diziam. E como mudam as expectativas, dependendo do ponto de vista. Na visão das garotas, pouco já seria muito. Na dos rapazes, tudo ainda seria pouco. No íntimo, esperavam mais, muito mais, sempre mais.  Como um espadachim às cegas, o  limpador de para-brisa esgrimia desesperada e inutilmente, tentando abrir passagem em meio à névoa. Só conseguia, com seu ranger monótono, aumentar o ensurdecedor ruído do motor sobrecarregado do velho fusca, que desapareceu na neblina carregando os sete jovens.