Volta às Américas – Capítulo 2

Volta às Américas – Capítulo 2

 

Nem o oceano escapou dos brasileiros…

 

O brasileiro realmente é um ser  que não nasceu, foi inventado ou trocado por cinco tampinhas de Coca-Cola. Pois não é que comecei a ouvir pelos corredores do navio que um dos melhores lugares pra se comer aqui era o Restaurante Oceano? E eu, o cara mais curioso e fuçador do mundo, me sentindo o mais mal informado dos seres humanos por não ter conhecido o recinto,  comecei imediatamente a correr o barco de cima a baixo. E nada de encontrar o tal point. Já estava me sentido vítima de bullying quando, num acesso de Hercules Poirot e ouvindo o accent característico de brasileiro falando inglês,  juntei diversas pistas deixadas ao acaso e descobri o mistério. Acontece que tem um pub irlandês no oitavo andar do navio  que abre 24 horas. Só tem trash food (Chicken wings, burger and fries, etc.). Um verdadeiro horror! E justamente por isso é meu favorito… Gosto muito do local e o frequento sempre que Dora está distraída e deixa…Tem até fish and chips e seu hamburger é genial. Mas, como todo irlandes que se preze, seu nome é um pouco complicado para os padrões linguísticos do Brasil e leva logo dois apóstrofes.   “O’Sheehan’s Bar & Grill. A turma brazuca ouviu os gringos dizendo o nome do  lugar e entendeu Ocean. Ocean? Sim, oceano… Claro, genial, que nome melhor pra um bar em pleno mar azul? Dai pro austero pub ser batizado de Restaurante Oceano foi um pulo. Pior é que o distinto pub agora deu pra ser chamado de Boteco Oceano. Só falta ser chamado de Botequim Pé pra Fora…Bom, falemos de coisas nobres. Ontem dei mais um passo em minha caminhada rumo ao pedestal dos bravos e corajosos. Pois no décimo oitavo andar do navio tem uma trilha de cordas – que os brazucas chamam de arborísmo apesar de não ter nem um pé de alface por aqui -, simplesmente radical. Fica debruçada sobre o oceano e a sensação de andar lá em cima olhando as ondas violentas que o navio faz enquanto balança é realmente de dar medo. Dos poucos que ousam enfrentar o negócio, mais de metade refuga quando chega ao primeiro obstáculo, que é uma viga super estreita, como essas de construção, que segue ao ar livre sobre o mar. Teoricamente, se você cair, cai do 21 andar no mar. Dora, como sempre, foi na frente e ficou dançando naquela geringonça. Eu vesti todo o equipamento, subi, olhei a coisa lá de cima, senti vertigem, amarelei e ia desistindo quando vi uma tremenda gata atrás de mim esperando a vez e sorrindo debochada como quem diz: “Como é, vai ou não vai?”. E Dora, encarapitada em outro balaustre, dando risada de minha covardia. Aquilo foi demais pra mim. Afinal sou um homem ou sou um rato? Quando já ia soltando um guinchado fazendo cara de Mickey Mouse, muito apropriado para quem está indo pra Miami, pois não é que baixou de repente em mim o espírito do Homem Aranha ou do Batman, não sei bem, e me deu uma coragem que só sinto em frente a uma pizza? Comecei a caminhar por aquelas cordas como quem passeia no Shopping levando o  Lulu pela coleira. Dai pra fazer pose largando as duas mãos foi um pulo. Só me faltou dar uns passos de balé, mas achei que aquilo iria danificar minha imagem de símbolo sexual conquistada a tanto custo. Achei melhor não. O gran finale da Rope Course, que é o nome do desafio, é uma prancha, como a dos piratas, que sai do navio e se debruça sobre o oceano sem nada que a apoie por baixo. Ali o vento é muito forte e quase sempre o acesso está fechado. Muitos marmanjos que fazem o circuito desistem no final. Na ponta da prncha tem uma corda, que é pros machos que lá conseguem chegar dar um puxão que ativa diversas câmeras. E eu cheguei. Parecia o capitão Jack Sparrow (Johnny Deep em Piratas do Caribe), só que sem o rímel nos olhos, lógico. E ficou tudo registrado pra provar para a posteridade. Vejam as fotos. Repeti a dose no dia seguinte e percebi que o medo, uma vez vencido, não volta. É nóis. Agora um segredinho. Estive por diversos dias observando o local e notei que as mulheres – sim, sempre as benditas mulheres –  se mostram mais corajosas do que os homens. Ô raça! Somente hoje, após sete dias ininterruptdas de viagem, conseguimos sair desse País chamado Brasil. A gente larga o torrão, mas ele não larga a gente. Acho que estamos ali pelo Suriname, que não deixa de ser uma espécie de Brasil, só que pior. Ou melhor, sei lá.  Amanhã conto outras histórias, inclusive duas de suspense envolvendo uma menina de dez anos e um casal suspeitíssimo. E conto também como estamos ficando famosos em meio a tantas celebridades, pra não dizer do bacon que virou alga… Inté.   

 

 

Volta às Américas – Capítulo 1

Volta às Américas

 

Capítulo 1



SOS


E eis que estamos a bordo do magnífico Norwegian Getaway, que normalmente fica ancorado em Miami, mas excepcionalmente foi até o Rio para dar suporte às Olimpíadas. Sorte nossa. O sistema da Norwegian, ao contrário das companhias italianas, é o “Free Style”, ou estilo livre. Nesses navios não se tem horário para nada nem lugares reservados ou obrigação com roupas sociais. Cada um faz o que bem entende, criando um clima informal bastante interessante. De nossa parte, adoramos o sistema, que nos deixa mais livres em relação a horários e restaurantes. Nosso destino é Miami. E notícias preocupantes aparecem nos noticiários, dando conta de um tal furacão cujo nome me escapa. Ainda bem…

Estamos totalmente isolados em alto mar, à mercê do mau tempo e de ondas gigantescas, sem comunicação alguma com o resto do mundo. Sem rádio, TV, Intenet, jornal, noticiários. Nada. Olhando pela janela da varanda vejo nuvens negras em forma de cornucópia anunciando um tornado vindo do Caribe, mais especificamente do Triângulo das Bermudas, que se aproxima em velocidade espantosa do navio, que como uma casca de nós balança perigosamente ao sabor da correnteza, aparentemente sem qualquer controle por parte da tripulação. E em meio à angústia que me toma o peito e ao medo que se instalou nas feições de assustados passageiros, me pergunto: se não tenho comunicação nenhuma, como você está lendo este comentário no Facebook? É claro que tudo isso só pode ser invencionice desse Barão de Muchausen das Arábias que vos atormenta com seus mal escritos, só para apimentar nossas histórias. Èta sujeitinho mentiroso, devia ser político… Na verdade, o mar está calmo como uma piscina, com seu azul profundo nos transmitindo uma paz incomensurável. E estou feliz, pois comprei um pacote de Internet que funciona milagrosamente bem, rápido e seguro. E estamos nos divertindo muito. Hoje conhecemos uma família de Sorocaba, muito simpática. Enquanto eu e Geraldo, o chefe da família na casa de sua frágil esposa, conversávamos a respeito de como os homens são corajosos, Dora e Solange escalavam uma incrível trilha de cordas instalada no decimo oitavo andar do navio, onde o ápice da aventura é se equilibrar em uma prancha que se lança sobre o mar, como a dos navios piratas. Nós, os machos corajosos, ficamos cá de baixo só orientando as damas, preparados para ampará-las em caso de queda, e prometendo que amanhã, sem falta e se não chover, escalaremos aquele brinquedinho de crianças de olhos vendados. Aliás, não entendi o porquê daquele brinquedinho ser proibido para menores — coisinha idiota e água com açúcar… Sobre o navio, é gigantesco, o maior que já singrou mares brasileiros, e totalmente diferente dos outros em que viajamos. Este funciona no estilo americano. Não tem horário pra nada, nem aquelas frescuras de assento reservado para o jantar. É o que eu procurava, uma zona total.. Come-se

 

em qualquer restaurante, no horário em que se deseja. Viva a bagunça! Mas, como nem tudo é perfeito, como sempre estou sofrendo nas mãos de chefs asiáticos, daqueles que acham que colocando mel, iogurte e açúcar no frango vão conquistar o paladar dos brasileiros e serão considerados dignos de três estrelas no guia Michellin… Já nossos honrosos compatriotas estão sofrendo aqui, pois ninguém na tripulação fala qualquer coisa que não seja inglês, indiano ou filipino. Assim, é muito engraçado ver madames falando com os gringos em português, lentamente e em altos brados, como se isso fizesse a garçonete do Alabama entender a última flor do Lácio. Após quatro dias comendo hamburger no almoço e hot dog no jantar conheci um casal de médicos que me aconselhou a mudar o cardápio. Assim, a partir de amanhã mudarei radicalmente, passando a comer hamburger à noite, deixando os hot dogs para o almoço… Logicamente sem abdicar das indefectíveis French Fries. Ignorância alheia eu suporto bem. Duro é conviver com ignorância própria… Aposto que qualquer pessoa neste universo que tenha frequentado ao menos UMA aula de inglês sabe o significado de “complimentary”. Pois eu sabia e me esqueci, pela falta de uso. E como sempre, me achando sabido, traduzi para o mais provável – complementar. Ai de mim que não caibo em tanta burrice. É que no jornal diário alguns pubs e restaurantes do navio vem classificados como complimentary. E eu logo achei que é porque serviam apenas lanches, digamos, um complemento alimentar. Hahahaha. Sei que todos vocês estão caçoando de mim, mas para aquelas quatro pessoas que também não sabem, “devo de dizer” que “complimentary” significa cortesia. Eles usam o termo para separar os restaurantes pagos. Eu ainda chego lá. Mas, pensando melhor, acho que vou dizer pra esses americanos que cortesia é o cacete. Eu paguei, e bem caro, pra comer nesta birosca. Eu não quero cortesia nenhuma, exijo meus direitos. Steward, please, how can I get to the Procon Stateroom?