As estrelas, essas tolas

As estrelas, essas tolas

Percy Castanho Jr.

 

 

As estrelas, essas tolas,

que à noite saem de casa

passeando por ai;

e se vestem como noivas

de grinalda prateada,

enfeitando o firmamento

sem saber que essa gente

tem coisa mais importante,

lucrativa e mais urgente,

que ficar de braço dado

com a moça, o namorado,

sem dizer coisa com coisa,

só pensando em coisa boba,

ou até em coisa à toa,

numa rede de varanda

debruçada sobre a areia,

que de vez em quando arde

como o fogo que me invade

como a ela a maré cheia,

vem o mar e despenteia

essas tranças de ninguém;

 

E as estrelas, essas tolas,

que de tolas não tem nada,

se escondem de repente

ao romper da madrugada

avisando à toda gente

que o amor ainda está vivo;

E que coisa mais urgente

que o amor não inventaram,

e é melhor sair da chuva

que invade essa varanda,

se deitar de braço dado

com alguém que nos afague

pelo resto dessa noite

e que beijos me perturbem,

seu calor me embriague;

 

Amanhã nessa varanda,

se a noite for de lua

prateada como orvalho.

essa rede que me aguarde;

meu amor viu uma estrela,

acho até que inda solteira,

tão fugaz quanto ligeira

atrasada pro trabalho.

10/11/2017

Dama da tarde

Dama da tarde

Percy Castanho Jr.

 

A fome sobeja

A carne fraqueja

A moça graceja

A gente corteja

E embora não seja

Assim benfazeja

A dama maneja

De forma não veja

Quem sói lhe proteja

Se esgueira e enseja

Como dona Beja

A alguém que rasteja

Seu seio cereja

No fundo da igreja;

Que mais ela almeja

Sem nem ficar peja

Senão a beleza

Que nela viceja?

 

28/10/2017

Espera

Espera

Percy Castanho Jr.

 

Que conste dos autos:

Excelência, fui,

mas o meu coração

rebelde contumaz

que detesta solidão

não me acompanhou.

Ele ficou na Mangueira

num barraco de  madeira

com as cores da escola

e um retrato de Cartola

pendurado na parede

quase em cima da chaleira

que prepara o meu café

enquanto a dona da casa

com o corpo em brasa

me atiça um cafuné.

E a moça na calçada

bate coxa na cadeira

até posso imaginar

soluçando  a noite inteira:

será que ele volta

ou será que vai ficar

como fez da outra vez

namorando a madrugada

sirigaita descarada

no cimento do xadrez

me deixando na saudade

sem ter dó nem piedade

e o que é pior:

enquanto ele não vem

meu coração que já é réu

julgado e condenado

por gostar de alguém

perdeu a liberdade

algemado na saudade

 

ficou preso aqui também. 

Um novo amanhecer

Um novo amanhecer

 

Eis que de repente

a gente se entrega,

sempre cabisbaixo,

zumbi depressivo,

sem razão aparente,

condição ou motivo,

e eis que ninguém

nos olha e compreende

que não foi vontade,

opção ou castigo.

Nem mesmo missão,

trabalho ou destino.

Difícil explicar

que uma doença

por mais que se queira,

por mais forte a crença,

não some do nada,

se esvai na poeira

do tempo que passa

levando a esperança,

mas fica conosco

sem dó nem piedade

pesando no corpo

a angustia e o medo,

até que um dia

a morte ou a sorte

de ter esperança

renasça de novo

na alma e no sangue

abrindo seus olhos

ao novo horizonte.

 

É isso que espero

que você entenda,

é isso que espero

que um dia aconteça,

é isso que espero

ainda mereça,

assim como espero

que o sol amanheça!

 

(Percy Castanho Jr.)

 

21/08/2017

Olhos no chão

Olhos no chão
Percy Castanho Jr.

 

 

Dos mansos olhares restou muito pouco,
dos longos suspiros sobrou quase nada.
Dos roucos sussurros nem mesmo murmúrios,
quem quer teu silêncio? Cadê tua risada?

Dos seios morenos procuro o abrigo;
em vão. Dos cabelos, só lembro o perfume.
Nas loucas noitadas beirando o perigo,
das brigas contigo faz falta o ciúme.

Na minha lembrança ficou só o medo
do vento da noite, escura, tão fria.
Do nosso romance sobrou só o enredo,
uma foto velada e uma cama vazia.

Juntei na memória o que pude guardar:
momentos, sorrisos, olhares, canções.
O tempo que apague, se o peito deixar,
as dores, as mágoas, as desilusões.

E o tempo não passa. Nem deixa passar.

Na fria calçada teus olhos no chão
imploram uma chance, vã insensatez.
Meu mundo girando, desprezo a razão: 
paixão sem sentido… te amo outra vez.

Folhas

Folhas

Percy Castanho Jr.

 

Um dia

Pensei que velho nunca ficaria

Que a juventude em mim sobraçaria

Como se agarram o viço e a energia

Que nem a noite em claro consumia

E nem um belo banho de água fria

Pra debelar o fogo de uma orgia

Que a cada sonho a mente consumia

E me levava aos seios que eu bulia

Sem medo e nem tampouco arritmia

Eu era tudo, um sonho de alquimia

Eu era jovem e disso nem sabia.

 

E eis que um dia

Muito mais cedo do que esperaria

Tal qual um raio me transportaria

Mais perto do que o ralo está da pia

Uma fieira que me rodopia

Atira ao chão o véu da nostalgia

Olho pra trás e o mundo se anuvia

Em pé nem sei o quanto aguentaria

me equilibrando ao som da ventania

que varre as folhas pela pradaria

e alcança-las bem que eu gostaria

para torna-las verdes como um dia.

 

Quem saberia se quiçá um dia…

 

29/07/2017

Poesia

Chimia

Percy Castanho Jr.

 
Poesia é como chimia

Só quem conhece aprecia

Um estranho ser idólatra

Que a si mesmo idolatra

E sonha viver na cama

Cercado de outros tantos

Egos inflados e frágeis

Cada qual com sua fama

Ainda que fictícia

Mas tal fato não é óbice

Para que tal pavão se emplume

Pros gozos dessa delícia

Que mesmo viessem à tona

Seus deletérios efeitos

Mais do que o queixo suspenso

Os jogaria na lona

Antes mesmo que o sol tentasse

Dar outra volta no mundo

Levando o ego rotundo

A ver que nem tudo é doce

Nas sombras dessa cidade

Chamada sucesso e onde

Além de seus muros vazados

ele se enfia e se esconde.

Palafitas

Palafitas
Percy Castanho Jr.

 

E mais não posso fingir

do que finjo;

E mais não posso sofrer

do que sofro;

E mais não posso calar

do que calo;

É de viver,

não à margem do rio

negando vida à semente,

mas

fundo qual aluvião

lodo, cediço, corrente;

É de viver,

não à sombra do bosque

à espera da hora maldita,

mas

varando a noite a pensar

nos berços das palafitas.

É de viver,

não em torno de um vale

outrora verde, hoje prédio,

mas, beber do veneno

até encontrar o remédio.    

É disso que falo,

é nisso que penso,

é isso que sinto. 

E mais não posso sentir

do que sinto;

E mais não posso viver 

do que vivo;

Se mais ainda não faço

é dolo, preguiça

ou cansaço.

 

Ossos do ofício

Ossos do ofício

Letra: Percy Castanho Jr.

Música: Tavito

 

Desde que sou gente

só apresso o passo

se no meu destino

tem um bom compasso

me esperando à beira

de um sol mormaço,

melodia é parte

do mister que eu faço;

 

Junto num suspiro

meu humilde traço,

pra virar cantiga

tem queda de braço,

pois todo  poeta

tem que ter espaço,

de cada refrega

sobra um estilhaço;

 

Se a rima é pouca

eu não me embaraço,

se me falta o mote

mesmo é que eu pirraço,

pego meu rabisco

e de raiva amasso,

recomeço tudo

deito no bagaço.

 

Bem tarde da noite

sempre desenlaço,

dou mais uma lida

ver se satisfaço;

se tiver no jeito,

feliz de cansaço,

canto aa minha moda

e corro pro abraço.

 

08/01/2013